
 (No importa lo que seas)
Corin Tellado



Disponibilizao: Marisa Helena, Digitalizao: Silvia e Reviso: Vitria

      COLEO: CORIN SRIE AZUL
      CORIN TELLADO
      UM VERO INESQUECVEL
      Traduo de Mrio Lanza
      Ttulo original: NO IMPORTA LO QUE SEAS (c) Corin Tellado
      Direitos exclusivos para o Brasil.
      CEDIBRA - Editora Brasileira Ltda.
      1 Edio - MCMLXXIX
      Distribudo por
      FERNANDO  CHINAGLIA  DISTRIBUIDORA  S.A.
      Composto e impresso pela Cia. Editora Fon-Fon e Seleta.



Capitulo 1
     - Sua injeo, senhor...
     Lawrence Smith virou-se para a enfermeira. E ela teve novamente a sensao de que os olhos penetrantes daquele paciente a desnudavam, vendo-a at mesmo por 
dentro.
     - Estou pronto, senhorita... Como disse que se chama?
     - Eu no disse, senhor.
     - Ah... - disse ele, enquanto arregaava a manga. - E no pode me dizer?
     Brbara preparava a seringa, sem responder. Aplicou a injeo e depois disso, no seu tom impessoal:
     - Pronto... Est indo muito bem. Poder estar em casa dentro de uns quinze dias.
     - No tenho muita pressa - respondeu ele, rindo, de um modo, esquisito. - Estou gostando do hospital e de v-la a toda hora. No quer mesmo dizer-me o seu nome?
     Vozes soavam no corredor, aproximando-se. Sobressaa a do chefe de planto. Mas havia tambm a de Teddy, e a de John, dois internos, e...
     Soou mais uma, diferente, que a deixou um tanto tensa. De quem seria aquela outra voz?
     - Tornarei a v-la esta tarde, no? - indagava Lawrence.
     Mas Brbara no o ouvia. Arrumava os seus utenslios e se dispunha a sair, curiosa, interessada... e receosa. Seria capaz de jurar que aquela outra voz era 
a de...
     Foi quando entraram os mdicos. E Brbara pestanejou, empalidecendo, confusa.
     - Bom dia - saudou, numa voz que falhava.
     - Ol - disse o chefe.
     Mas Brbara olhava para o outro, o estranho. Isto , estranho no hospital, porque, para ela... 
     - Brbara! - exclamou ele, sem poder conter-se.
     A jovem retesou-se.
     - No esperava encontr-lo aqui, Dr. Newman...
     -  que... cheguei esta manh. Agora trabalho aqui.
     Os outros no lhes prestavam ateno. Dirigiam-se ao paciente. Mas este, em compensao, s tinha olhos e ouvidos para aqueles dois que, evidentemente, se reencontravam.
     - Como se sente, Sr. Smith? - Indagou o Dr. Morton.
     - Mais ou menos - replicou Law, distrado.
     O chefe da equipe examinava sua papeleta.
     - Mais ou menos...? Est em franca convalescena, Sr. Smith! - dizia, jovial - Espero que no tenha queixas da nossa casa...
     - Ah! No, no... nenhuma! Pelo contrrio, doutor...
     Mas Law continuava observando a enfermeira e o novato. J se conheciam, estava claro. E ela no estava gostando do reencontro.
     - Doutor, pode me dar licena, um minuto...? - pediu ele.
     - Sim, claro... - Morton olhou o relgio. - Pode me esperar no stimo, dentro de meia hora. Quarto dez, doutor.
     Law viu Newman sair apressado. Ia atrs da enfermeira, no havia dvida. Mas... por qu?
     - Sr. Smith... tem muitos amigos em Macon, hem? - dizia Morton. - E, pelo jeito, em todo o Estado da Gergia... Dizem que so inmeros os telefonemas, indagando 
pela sua sade... Mas... no tem famlia?
     - No. Parente, nenhum. E nem amigos. - Law riu, com a sua calma j bem conhecida. - Mas tenho empregados. Muitos. Eles  que perguntam por mim. Uns, porque 
querem me ver morto, e outros porque temem que eu morra.
     Morton riu e os internos tambm.
     - Ainda bem que no perde o bom humor... - disse Morton.
     - Acha mesmo que sou homem de humor, doutor?
     - Parece-me que sim.
     - Pois engana-se.
     Logo que saram, Morton comentou, baixinho:
     - Um sujeito estranho, este...
     - Soberbo - disse Teddy.
     - E muito - corroborou John. 
     Mas Morton meneou a cabea negativamente.
     - Nem tanto - disse. - Nem tanto.
     
     - Enfermeira Brbara Scott... Brbara Scott... - chamava o alto-falante. - Comparea ao sexto andar.
     Ann tocou no ombro de Brbara.
     - No est ouvindo, garota...? 
     Claro que estava. E j sabia quem a chamava. Santo Deus!
     Por que, depois de quatro anos, tivera que se encontrar com Burl Newman outra vez?
     - J vou, Ann - respondeu.
     - No tem planto hoje. No? Ns nos veremos  sada?...
     - Sim.  sada.
     - E como est o seu enfermo especial...?
     - Especial...? 
     Iam andando juntas. Ann, delgada, morena. Brbara, multo loura, esbelta, frgil...
     - Tenho que levar estes papis  pediatria - disse Brbara, para dizer alguma coisa, para desviar o assunto.
     -  muito rico. No?
     J sabia a quem Ann se referia. Todo o mundo falava nele.
     - . Dizem.
     - Dono das melhores e maiores plantaes de algodo de todo o pas... Que h com ele, afinal? Est internado h duas semanas...
     - Insolao - replicou Brbara, brevemente.
     Porque no pensava no ricao, seu paciente. Pensava em Burl Newman. Ao passo que Ann queria falar do primeiro.
     - Insolao? Mas... no dizem que  riqussimo...?
     - Mas tambm trabalha, parece. Esteve  beira da morte.
     - Gostaria de ter sido eu a encarregada de cuidar dele - disse Ann, rindo. - Deve ser interessante lidar com um sujeito to poderoso.
     - Pois bem poderiam mesmo t-lo entregue a voc... - Mas no explicou o motivo. - Vai almoar aqui mesmo, Ann?
     - Claro. Comida com gosto de ter, mas... que se h de fazer...? - Ann riu. - Ento, espero-a s sete, l fora...
     - O carro no est trancado. Pode entrar, se eu demorar.
     Separaram-se na esquina do corredor, Brbara tinha que ir ao sexto andar... Desceu, dirigindo-se  telefonista.
     - Maud... estavam me chamando?
     -  o mdico novo... Quer falar com voc.
     - Ah... Temos um novo mdico, ento?
     Brbara queria ganhar tempo tranqilizar-se tanto quanto possvel.
     - Comeou hoje - dizia Maud. - Est com o Morton... sabe, o mdico do paciente do doze... Chama-se Newman.
     - Ah! Sim.
     - Decerto quer falar justamente a respeito do doze... No sei por que se preocupam tanto com a tal Law Smith.
     - Decerto porque  muito rico - disse Brbara, sorrindo.
     - Ser tanto como dizem?
     - Mais ainda... - respondeu Brbara, afastando-se.
     - O Dr. Newman  multo simptico - acrescentou Maud.
     Claro, sempre fora. E por isso mesmo...
     Brbara respirou fundo. Tudo aquilo estava - estivera - to longe! Por que teria de voltar tudo? Por que teria de suportar agora a sua presena...?
     Talvez ele quisesse pedir-lhe que se demitisse, que se fosse... Ora, isso seria um grande desaforo. Ela no iria! J passara um ano vagando e fora uma terrvel 
experincia...
     Agora estava enraizada ali, por assim dizer. E no iria. 
     Bateu  porta da sala que lhe indicara Maud. E ouviu a voz firme de Burl: 
     - Entre.
     Entrou, fechando a porta de mansinho, atrs de si.
     Ali estava ele. Alto, magro, nem bonito nem feio. De traos bem viris, agora crispados, tensos.
     Ela avanou at a mesa, sem hesitar. Burl no sorria.
     - Pelo visto, terei de usar aquela velha frase: "Este mundo  pequeno". Hem?
     -  verdade.
     - Sente-se, Brbara. 
     -  preciso?
     - Sim. . Temos vinte minutos para conversar sem que ningum nos interrompa. Agora nos veremos freqentemente... talvez diariamente. No?
     - Acho que sim.
     - Est aqui h muito tempo?
     - Trs anos.
     - E, no outro...?
     Quatro anos haviam passado, sim. Mas Brbara no ia dizer o que fizera naquele outro. O primeiro.
     - No creio que tenha de prestar contas de todos os meus passos desde que... me deixou.
     Estava calma, suas mos, belas, finas, expressivas, tinham gestos graciosos, tranqilos. Seus olhos de cor turquesa, lmpidos, estavam muito serenos.
     Burl irritava-se, vendo-a to segura de si. Sua forte personalidade se impunha como sempre. E isto lhe desagradava.
     Considerava absurda aquela sua soberba, porque, se ele a deixara, um dia, foi por motivos bem concretos.
     - Eu a deixei por uma razo. - protestou ele.
     - Teremos que falar disto?
     - Claro que temos de falar!
     - Ter voc.
     Pitaram-se, num desafio. Como inimigos - pensou ela.
     - Estamos aqui para pr as cartas na mesa, Brbara.
     Ela meneou a cabea, friamente.
     - No vejo necessidade disto, Burl. Se nos encontramos aqui, foi por acaso. Portanto, faamos de conta que nos conhecemos hoje... e que no houve nenhuma corrente 
de simpatia entre ns. Assim, cada um continuar no seu caminho.
     Ele a fitava duramente, em silncio. 
     - Continua afirmando que nunca me enganou - disse.
     - Continuo.
     Burl cerrou os punhos.
     - Mas eu vi! Vi com os meus prprios olhos!
     - Sim. Claro.
     - Voc  uma cnica!
     - Insultos novamente, Burl?
     - E mil vezes mais! Voc me feriu, me traiu, me humilhou!
     - Por favor... Tudo isso ficou para trs! Ademais, acho que j passaram os vinte minutos...
     - Espere.
     Ela suspirou, com exagerada resignao.
     - Ainda h mais...? No acha que tudo j foi dito?
     - Acho que ainda est tudo por dizer! - exclamou Burl. E logo acrescentou, num tom de voz muito diferente, que nem parecia a dele: - Escute, Brbara, podemos 
tratar-nos como amigos...
     - Que espcie de amigos?
     - Amigos, simplesmente. Eu ainda gosto de voc, sabe?
     Claro. Era o que podia esperar dele. Mas no, nunca...!
     Virou-se para sair, mas ele avanou, postou-se  sua frente, desafiador.
     - Estou neste hospital para ficar! - declarou.
     - Eu tambm! - replicou Brbara, sustentando-lhe o olhar.
     - Escute, Brbara... podemos esquecer o passado e pensar no presente. No acha? Ns nos amamos e...
     - Tem certeza de que me amou? - cortou ela. - Eu, sim. Sei que o amei. No vou negar isto. Mas voc...
     Burl tentou segur-la pelos ombros, Mas Brbara, subitamente furiosa, esquivou-se, dirigindo-se para a porta. 
     - No queira agora sujar uma recordao - disse, seca. -  o que mais di. Que tenha duvidado de mim. Que me considerasse uma... perdida, certo. Poderia passar. 
De certo modo, teve motivos para pensar assim. Mas, se tivesse parado para pensar um pouco. S um pouco... no teria pensado. Compreenderia que eu o amava demais 
para querer outro.
     Fez uma pausa, meneando a cabea, olhando-o, avaliando-o.
     - Mas tudo isso passou... e o que di de fato, agora, mais do que doeu tudo...  v-lo assim, sabe? V-lo...
     - Cale-se!
     - Covardia?
     - Brbara... voc estava nos braos de outro.
     Sim. Estava. E teria podido explicar por que, e quem era o outro. Mas no o fez por uma questo de orgulho, de dignidade. Nem o faria.
     - Pense o que quiser - disse apenas. Quis sair, mas ele a impediu novamente, fitando-a.
     - Brbara... esqueamos tudo aquilo... e recomeamos...
     - Recomear... como?
     - Ns nos amamos. No? Por que no podemos continuar...?
     Era duro ter que fazer aquela pergunta. Mas tinha de faz-la, e ela a fez:
     - Sem, falar em casamento. No  Burl?
     Ele a olhava fixamente. Parecia um estranho. Claro que j no era o mesmo.
     - Sim. Isto mesmo - respondeu. - Quem iria pensar nisto!
     - Voc pensava, h quatro anos. Pelo menos dizia que...
     - Mas tem que compreender que...
     Ela no queria compreender nada. Passou a mo por baixo do brao dele e abriu a porta. Saiu sem virar a cabea.
     Mas deteve-se para dizer baixinho:
     - Voc poderia ser o ltimo homem neste mundo, Burl... e eu, como mulher, teria muitas inquietudes, afetivas e sexuais... mas a voc nem olharia, Burl. Pode 
ficar certo disto. No o aceitaria por nada deste mundo.
     - Escute...
     - Pode ficar certo disto. Repito.
     
     Mag inclinava-se para ele.
     - Logo ter alta. No, Law? 
     Ele no a olhava. Mal a ouvia. Pensava noutra coisa.
     - Law, querido... Tenho sentido tanto a sua falta!
     Claro. Para as festas, banquetes, restaurantes... Mag sabia o que queria: a sua companhia e... a sua fortuna. E ele conhecia bem as pessoas. Sabia quem o estimava, 
quem o invejava e quem o detestava. E quem nem o olharia se no tivesse a fortuna que tinha.
     Ele podia compreender os desejos de Mag. Talvez at tivesse acabado casando com ela, se no o internassem naquele hospital. Mas ali estava e ali conhecera uma 
moa... nica. E que ningum lhe perguntasse por que a considerava nica. No saberia responder.
     - Law... voc parece ausente...
     - Acho que sairei na prxima semana - disse.
     - Que bom! Acho que est muito s aqui...
     S? Em que sentido? Ali, ou na vida, em toda a sua vida?
     - No tem pai, nem me, nem parentes... Deveria ter filhos, Law. Filhos seus...
     Law no pretendia se dar por achado, mas Mag acrescentou:
     - Nossos filhos, Law... Acho que j  tempo de pensarmos no casamento...
     Ele no se lembrava de ter falado em casamento, de ter dito a Mag que pretendia casar com ela. Mas, pelo visto, Mag tivera tal idia. 
     Moveu-se na cama, impaciente. No eram horas de ser medicado? Onde andaria... Brbara? Pelo menos agora j sabia como se chamava...
     Pensou no novo mdico, Newman. O que teria havido entre eles? Porque algo houvera, e no muito agradvel...
     - Law...
     Caramba, Mag ainda estava ali. E logo chegaria a sua enfermeira... Sua, porque assim o solicitara. Queria a enfermeira loura para cuidar dele, pelo menos nos 
seus horrios de servio. E, como pagava muito bem...
     Coisas que se conseguem com dinheiro. A princpio lhe haviam dito que no, no podia ser... No fim, a coisa lhe custara a montagem de uma ponte no ptio do 
hospital e cem leitos para o pavilho de atendimento gratuito...
     Mas conseguira o que queria. E ainda havia quem falasse em igualdade, em tratamentos e chances iguais para todos...! Asneiras!
     - Law...
     - Mag, querida. No deveria estar aqui...
     - Law, voc no me respondeu. 
     Law suspirou. Sempre suspirava com resignao quando estava com ela. Como a conhecera...? Ah, numa festa. E no sabia por que danara com ela mais que com as 
outras. Depois continuara a v-la, quase todos os dias. Por iniciativa dela, certamente...
     Pensara que poderia am-la. Mas no era to fcil amar. Pelo contrrio, era bastante difcil.
     - Law, eu at gostaria de ficar aqui com voc, para lhe fazer companhia, cuidar de voc...
     Tambm gostaria de vir a ser a Sra. Lawrence Smith - pensou Law. E no por ele, nem pelo seu nome... Pela sua fortuna. Mag tinha posio social, amizades importantes, 
fora educada em colgios para moas da alta. Mas, de dinheiro, nada. E era o que procurava: dinheiro. Ao passo que ele... procurava sinceridade.
     - Est na hora da minha sesta, Mag - disse ele.
     - No lhe importa que eu venha visit-lo. No?
     Olhou-a fugazmente. Tinha os olhos claros, penetrantes, a pele tostada. Podia parecer um africano ou sujeito de vida fcil, desses que passam o dia estendidos 
ao sol...
     Estava sempre exposto ao sol, sim. Mas no estendido. Comeara como peo, aos quinze anos... S aps muita luta conseguira estabelecer-se numa pequenina propriedade 
sua. E agora, quinze anos depois, era o dono das melhores plantaes de algodo de todo o Estado.
     Suara sangue, por assim dizer, para atingir o seu objetivo. S ele sabia quanta luta, quanta renncia, quanto sacrifcio...
     -  muita bondade sua, Mag. 
     - Law... no  bondade!  que o amo...!
     - Isso tambm  bondade sua, Mag.
     - No acredita...?
     Se ela fosse sincera, no faria questo de que ele acreditasse. Mas, sim, de que lhe correspondesse.
     - J  tempo de pensarmos... a srio, Law.
      Mag era bonita, distinta, fina. Mas... Bem. Na verdade, ele nunca lhe falara nem em namoro, quanto mais em noivado! E nem se lembrava de t-la beijado, porque 
s o fizera nos primeiros dias...
     Ele, para beijar uma mulher, tinha que am-la e desej-la. E muito.
     E a Mag nem amava nem desejava. 
     - Law, quando sair daqui conversaremos. Certo? Sobre o nosso futuro. Aquele seu palacete, sem risos e gritos infantis... d at pena. Sabe?
     Ele visualizou crianas, no jardim do palacete. Mas com os traos da enfermeira loura. Brbara. Bonito nome. Amava-a, por acaso? Ora, como poderia am-la, se 
a conhecia h alguns dias apenas?
     Mas a desejava. E pressentia que chegaria a am-la. A ela, sim. Aqueles olhos cor de turquesa, aquelas mos finas, lhe diziam algo. Era o que mais lhe chamava 
a ateno nela: seus olhos e suas mos to expressivas.
     - Law... voc no est me ouvindo! - queixou-se Mag. - Est mesmo com sono, querido?
     - . Acho que sim... Ainda estou enfraquecido. Sabe?
     Seria a melhor maneira de livrar-se dela. E deu resultado. Podia, finalmente, ficar em paz... esperando a enfermeira. 
     
     
Captulo 2
     Law estava virado para a parede, mas ouviu a porta abrir-se. E esperou para ouvir em seguida aquela voz clida:
     - Boa noite, senhor.
     Virou-se, devagar. Nunca se apressava. Era fleumtico. Nada o impressionava muito, nada o assustava. Nem a vida, nem as lutas, nem a morte. Nada.
     - Sua injeo, senhor.
     Ele mesmo arregaou a manga, observando a enfermeira.
     - Voc o ama muito? - perguntou. 
     Brbara pareceu levar um choque. Ergueu a cabea vivamente.
     - A... amar? 
     - Sim, a ele.
     - Mas... quem?
     - Esse mdico novo.
     Ela desviou a vista. Sempre a desconcertava aquele paciente. Mais ainda quando o Dr. Morton lhe dissera que s ela deveria atend-lo. E depois... continuara 
desconcertada.
     - No o ama?
     - Seu brao, senhor...
     - Pronto. A est. Pode espetar.
     E quando ela o fez, insistiu:
     - Foi h muito tempo...? 
     Brbara guardou silncio, injetando o lquido. Logo retirou a agulha e se endireitou, virando-se em seguida, sem querer olhar o enfermo.
     Ela jamais o vira antes. Nem sabia da sua existncia. Ouvira comentrio a respeito dele, mas no lhe dera importncia. Nem mesmo quando ele doara os cem leitos.
     Mas agora comeava a v-lo de outra maneira. A se perguntar como poderia ele penetrar daquele jeito no seu ntimo, nos seus segredos.
     - Foi o que me pareceu - continuava ele.
     Como se o seu silncio fosse resposta afirmativa s perguntas que lhe dirigia.
     - Boa noite, senhor.
     - Brbara!
     Agora sabia o seu nome. Claro, Burl o pronunciara ali.
     - Brbara, no v ainda... Venha c. 
     No iria. Olhou-o de lado, j perto da porta.
     - Convm que descanse, senhor.
     - Sabe que s estarei aqui mais trs dias?
     - Sim, senhor.
     - Escute, Brbara, quero fazer-lhe uma pergunta. Gosto da franqueza, sabe? Procuro a verdade em tudo e o caminho mais direto.
     Ela o olhava de lado, sem voltar-se, esperando.
     - Trata-se de voc e de mim, Brbara. 
     A enfermeira franziu um pouco a testa, intrigada.
     - No sou nenhum pecador, nem um santo, Brbara. Sou um homem, com todas as fraquezas e virtudes do ser humano.
     Ela o escutava, como que paralisada, fitando-o. Aquele homem tinha um olhar perscrutador, agudo. Parecia desnud-la, e no s fisicamente.
     Pensou em sair dali s pressas, em pedir ao Dr. Morton que pusesse outra no seu lugar. Mas pensou tambm que seria covardia fugir.
     - Quero pedir-lhe que se case comigo, Brbara.
     Brbara quase deu um pulo. No deu, mas chegou a cambalear. Teve que encostar-se  porta ainda fechada.
     - Estranha? - inquiriu ele.
     - Um pouco.
     Ele sorriu, sem abrir os lbios. Assentiu. E admitiu:
     - Eu tambm acho.
     - Ento... no o entendo.
     - Entende.  que no pode conceber que um homem a pea em casamento, assim, de repente. Quero dizer, que um homem pea a uma desconhecida que se case com ele.
     - Sim... Sim.  isto.
     - Mas o que me responde?
     - Que no. ... absurdo.
     - Tenho muito dinheiro.
     Agora ela tambm o olhava fixamente.
     - E que importa isto? - retrucou. - Dinheiro resolve problemas afetivos?
     - No resolve?
     - Para mim, no. Dinheiro  bom, mas secundrio. Para o casamento, pelo menos... Os sentimentos  que so importantes.
     - Por isso quero me casar com voc. Acho que procuro h sculos uma mulher como voc.
     - Eu... sinto muito... Sr. Smith. 
     Virava-se novamente para sair. Law disse tranqilamente:
     - Insistirei, Brbara.
     
     - Posso ir com voc?
     Brbara virou-se, olhando-o. Sua resposta foi seca:
     - No. Claro que no.
     Burl tentou agarr-la pelo brao. E Brbara estremeceu, a seu pesar. Ainda amava aquele homem. Disso tinha certeza. Mas no o deixaria perceber.
     - Mesmo que no permita, eu irei - disse ele. - Irei  sua casa. J sei onde mora. Procurei o seu endereo no arquivo.
     Brbara girou nos calcanhares.
     - No! - disse com firmeza. - Est tudo acabado!
     Caminhou depressa para o estacionamento. Entrou no carro e se foi com Ann, que j a esperava. Ann presenciara a cena, e estava intrigada.
     - Que h com o novo mdico? - indagou.
     - No sei.
     - No sabe...? Esta no, Brbara! A mim voc no engana!
     Sabia que no a enganava. Nem queria engan-la. Ademais, seria melhor que desabafasse.
     - Foi meu namorado... ramos noivos.
     - Caramba!
     Mas Brbara se mostrava fria. Procurava controlar-se, comportar-se com naturalidade.
     - Onde quer que a deixe, Ann?
     - Na minha casa. Mas, escute, me conte... que foi qu...?
     - Ele me encontrou com outro. No meu apartamento.
      Ann ficou muda, espantada. Mas desatou a rir. Como se aquilo a divertisse muito.
     - Voc...? Voc, sendo infiel ao seu amado...? - indagava.
     - Eu disse que o amava?
     - No. Mas eu a conheo... h trs anos. Conheo a sua dignidade, a sua integridade, Brbara. No posso acreditar que tivesse um namorado s para divertir-se.
     Brbara assentiu, vagarosamente. 
     - Sim. Eu o amava. Muito. Tanto quanto se pode amar.
     - E voc  capaz de amar muito
     - Acho que sim. Isto , sei que sim. O fato  que o amava. J ramos namorados h um ano, mais de um ano. Eu estava terminando meus estudos. Ele j era formado. 
No sei por que teve de ir ao meu apartamento naquela tarde...
     - Alguma fofoca?
     - Acho que sim. Havia invejas e... outros interesses. Havia o Rich, que andava querendo me namorar, que me perseguia, na ausncia do Burl... Acho que foi ele 
quem lhe disse que eu andava recebendo... visitas, do Louis.
     - Mas... ento o homem... existiu?
     - Claro. Existe. Mas isto  outra questo. No era meu amante. Mas Burl nem me deu tempo para apresent-lo. E, quando compreendi que duvidava de mim... no 
iria mais dizer-lhe quem era! Nem o que ele fazia no meu apartamento, o certo  que estvamos quase abraados, quando Burl abriu a porta...
     - Mas ento... ele tinha a chave do seu apartamento?
     Isso era o pior. O que mais doa.
     - Tinha - murmurou.
     Ann no fez comentrios. Pensava muitas coisas. Sobretudo, que Brbara jamais teria sido capaz de trair o homem a quem amava. Nisso no acreditaria nunca.
     - Vai ser duro para voc, v-lo todos os dias - foi o que disse. - Muito duro.
     Compreendia bem o alcance daquela afirmao de Brbara, quanto  chave. Mas sobre isso nada dizia. 
     - Eu sei. Mas no vou fugir. Fugi uma vez e basta. Agora no fujo mais.
     Parava diante da casa de Ann. Esta no se decidia a descer do carro, a deixar a amiga sozinha.
     - Escute, por que no entra um pouco? Podemos continuar conversando...
     - No h mais nada a dizer, Ann. Burl pensou que aquele homem... fosse meu amante. No quis me ouvir, no me deixou falar. E ento eu mesma me fechei. No quis 
explicar nada.
     - Mas... tampouco a conhecia, o Burl?
     - Tampouco conhecia eu o Burl! - retificou Brbara.
     Ann desceu. Mas inclinou-se para a janelinha.
     - Brbara... entre um pouco - insistiu. - Vai se sentir muito s... no seu apartamento.
     - A isso j estou habituada, Ann. Obrigada.
     E se foi, dirigindo devagar.
     
     
Captulo 3
     Mal acabara de entrar, quando soou a campainha. Soube que era ele, s podia ser ele. E teria que receb-lo. Ele no era dos que desistiam...
     Em todo caso, podia enfrent-lo e resistir-lhe agora. No era mais aquela menina ingnua e sozinha... que no soubera conhec-lo.
     Abriu a porta, sria, e o encarou. Ele sorriu.
     - Eu lhe disse que viria... 
     Deu-lhe entrada, sempre silenciosa, fria.
     No o temia. Temia a si mesma, temia os seus prprios sentimentos, no os dele, posto que j sabia que no existiam.
     - No tenho um salo para receb-lo - disse, apenas. - O apartamento  pequeno e humilde, como v. Uma s pea, dividida em vrias, pelos mveis. Tenha cuidado 
para no tropear.
     - Suas ironias me desagradam.
     - Nunca fui irnica.
     Ofereceu-lhe uma cadeira, com um gesto. Um gesto muito feminino, muito gracioso, muito seu. Mas Burl no quis sentar-se.
     - Vim para falar seriamente com voc. Voc sabe.
     - Sei...
     - A respeito de... ns mesmos.
     Era o que no lhe perdoava. Que a fizesse reviver tudo aquilo. Aquilo que levava no ntimo, cravado, como um espinho. Um espinho que causara uma ferida infectada.
     - No temos mais nada a dizer. Tudo acabou naquela tarde. Quando entrou no meu quarto e me viu com um homem e pensou que fosse meu amante.
     - E se atreve a dizer ainda hoje que no era?
     Ela deu de ombros. Aparentemente muita calma, fria. Mas sangrando por dentro.
     - E que importa agora? J passou. Passou a tremenda decepo que sofri ao ver a sua fria, a sua acusao...
     - Quem era aquele homem?
     Brbara no respondeu. Encarava-o, serena, disposta a enfrent-lo.
     - Foi o Rich quem lhe disse. No foi? - inquiriu.
     Era a primeira vez que nomeava o colega e amigo do seu antigo namorado, relacionando-o ao assunto. Notou o assombro de Burl e continuou:
     - Sim. Foi ele. Tenho certeza... E voc acreditou nele, no homem que queria tra-lo, engan-lo, no em mim... Rich, o seu grande amigo, que andava atrs de 
mim, quando voc virava as costas... No sabia disso, no ? Pois era isso. Quando eu disse a ele que no, ele jurou que se vingaria.
     Burl estava surpreso, mas no inclinado a acreditar nela. Brbara via isto claramente. Mas no se importou. Nada mais importava.
     - Rich soube que Louis me visitava porque andava rondando o meu apartamento. No se contentava com a perseguio no hospital...  isto mesmo. No me olhe assim! 
Estou dizendo a verdade, embora no acredite, nem me interessa que acredite...!
     - Voc era... minha...
     - No o diga. Estou vendo ainda nos seus olhos a clera, o dio... tal como naquele dia. Eu tentei dizer-lhe quem era Louis. Mas voc no quis escutar. E ainda 
me parece sentir, aqui, na face, a sua bofetada...!
     - Voc era minha...
     - O prprio Louis quis explicar-lhe as coisas... Mas a eu no queria mais dizer-lhe nada. E o empurrei para fora do apartamento... Quando ficamos a ss, voc 
me esbofeteou! E agora ainda quer... o qu?
     - Voc era...
     - Sua namorada, sim. S isto. Tinha dezessete anos quando o conheci. Era uma menina boba e sozinha, que acabava de perder a me, seu nico arrimo... Fui uma 
boba, amando-o, confiando em voc... Mas agora no sou mais nada disto. E j sei que voc nunca me amou.
     Burl deu um passo  frente. Ia toc-la, mas Brbara rodeou a poltrona, colocando-se atrs dela.
     - Quem era aquele homem, afinal? - gritou Burl.
     Ela sorriu, desdenhosa.
     - Se tivesse feito esta pergunta, ento, com amor... eu lhe teria dito. Mas, quando vi a sua suspeita, a sua maneira de me julgar sem esperar uma explicao... 
j no quis dizer-lhe. E agora, muito menos. No  mais da sua conta. Entende?
     - Pois eu vou contar a todos...
     J sabia que a ameaaria assim, que era capaz de fazer aquele tipo de chantagem. Mas no se deixaria intimidar.
     - Nunca fui covarde. No o fui, para fugir, naquela mesma noite, deixando tudo para irs; estudos, emprego, casa... tudo. Nunca mais voltei a Charleston e Jamais 
voltarei para voc. Nem por ameaas, nem por splicas. No ria assim... j sei que voc no  dos que imploram...!
     - Mas o que far, se eu a encurralar? Sabe que, entre a palavra de uma enfermeira e a de um mdico... todos acreditaro no mdico. No?
     Que tristeza comprovar que era to mesquinho! O homem no qual confiara tanto!
     Como no respondesse, Burl pensou que a intimidara. E continuou, indiferente  dor que transparecia no seu semblante:
     - Seja como for... no quero mesmo saber quem era Louis. Nem venho pedir que me ame. S quero que... me atenda, receba.
     Brbara crispou as mos no encosto da poltrona.
     - Podemos continuar como antes. Sabe? Com a diferena de que j no seremos noivos. S isto. Ningum ficar sabendo. E, se souberem, no ser o primeiro caso. 
No ? Entre um mdico e uma enfermeira. Um entendimento...
     - Voc  mesmo um canalha.
     - Sou um homem. Entenda, Brbara. No h por que confundir as coisas.
     Brbara atravessou a sala pequenina e abriu a porta.
     - Saia daqui - disse. - Saia da minha casa.
     No gritava, no se agitava. Estava indignada demais para alterar-se. Sua clera era fria e por isso mesmo mais terrvel. Mas ele a fitava, entre divertido 
e amoroso.
     - Gosto do seu temperamento - disse. - Enfim, espero que pense um pouco... e veja o que lhe convm. Posso esperar... uns dias. Sabe, naquele tempo, eu a amava 
mesmo e pretendia casar com voc. Palavra de honra.
     - Honra...? Voc teve isso alguma vez?
     - No vamos divagar agora, querida... O que em de fazer  pensar na minha proposta. Certo? Esperarei uma semana... ou duas, v l que seja, duas. Mas no mais. 
Entendeu?
     - J dei a resposta; nunca.
     - Esta palavra  muito forte. No v que o destino nos juntou de novo, que...?
     - Saia.
     - Ora, vamos. No entendo essa sua... dignidade.
     - Saia, ou no respondo mais por mim!
     Agora a fria vibrava na sua voz contida. E ele saiu, passou por ela, olhando-a, risonho. Como um vencedor. Brbara fechou a porta, encostou-se nela, cobriu 
o rosto com as mos.
     Suspirou fundo. Era valente, sim. Corajosa, mas... aquela situao era delicada demais, perigosa demais. Como poderia sair dela?
     
     Encontrou-o no corredor, quando ia para o quarto de Law Smith. Ele a vira primeiro e a esperava, parado, olhando-a. 
     - Ol.
     Levantou a cabea vivamente. Todos os acontecimentos tomaram a passar pela sua mente, como um filme. Reviveu tambm, por um instante, o sentimento que a unira 
a ele.
     Sofrera muito com o rompimento. E ainda sofria, porque ainda o amava. A injustia no conseguira matar o seu amor.
     - Esta noite irei... visit-la, Brbara. 
     Assim, como se ela estivesse...  disposio.
     Mas Brbara nada disse. Passou por ele simplesmente, tratando de controlar-se: Nem soube como entrava no quarto do ricao que... que a pedira em casamento. 
Teria pedido mesmo? Ou fora um sonho?
     - Sr. Smith... sua... injeo.
     Ele a observava, com aquela sua maneira penetrante. Parecia v-la por dentro. Seu corao magoado, seu crebro torturado.
     - Brbara... voc chorou.
     Tinha um acento consolador, aquela sua voz. Brbara cerrou os olhos com fora, reabrindo-se em seguida.
     - Por que, Brbara?
     - Sua... sua injeo...
     Ele levantou a mo e colheu com a ponta do dedo a lgrima que caa, incontida, de um dos seus olhos.
     - Foi muito ferida - disse ele, baixinho. - Muito magoada. Feriram muito fundo a sua fina sensibilidade de mulher.
     - Seu... seu brao, por favor, senhor...
     - Sim. Claro... Mas diga se posso ajud-la.
     Ela sacudiu a cabea.
     - No.
     - So coisas de amor. No  verdade? 
     - Permita-me...
     - Gosto de olhar para voc. Sabe? De senti-la assim, perto. Deve ser fcil am-la e faz-la feliz.
     A ela ningum mais poderia fazer feliz. Nunca mais.
     - Assim... vai doer, senhor. Se no ficar quieto...
     Ele levantava a manga, imvel por ura momento.
     - E voc  corajosa... Tem famlia? 
     No queria responder, falar de si. No queria familiaridade com ele. Muito menos fazer confidncias.
     - Responda, por favor, Brbara. Eu lhe fiz uma proposta...
     - No. No quero casar com o senhor.
     - Por que est apaixonada por outro? 
     - E que importa isso?
     - No sei se importa a voc. A mim, no. Nada.
     - Na... nada?
     - Nada. Nada me importa, sinceramente. No estou fazendo uma proposta suja, vergonhosa. Estou falando com toda a simplicidade, humanamente.
     - O casamento  algo mais... mais sagrado, mais belo.
     - No duvido. Concordo. E por isso mesmo lhe peo que seja minha mulher. Hei de respeit-la, am-la e admir-la. Tudo isto e mais o desejo... que comeo a sentir 
por voc...
     - At logo, Sr. Smith. 
     - Espere, Brbara.
     Ela virou a cabea, esperando,
     - O que pensa do casamento?
     - Nunca fui... casada.
     - Mas  inteligente e humana. E tem idade suficiente para ter opinio formada.
     No queria responder e, por isso, abriu a porta. Law no insistiu. Pediu, apenas:
     - Pense, Brbara. Acho que a voc  fcil amar... e a mim tambm. Acredite. Sou um sujeito simples e real. Tenho muito dinheiro porque eu mesmo o ganhei. Sabe? 
Passando frio, fome e calor tambm, como desta vez... Enfim, pense, por favor.
     - Mas... se o senhor nem me conhece... 
     - Conheo. H um ms, vendo-a constantemente, trs, quatro vezes por dia... observando-a... Eu sei ver mais alm, no olhar alheio. Sei penetrar. E raramente 
me engano.
     Ela respirou fundo, dando forma  idia que brotava na sua mente. E tomando coragem para exp-la.
     - Se eu fosse sua namorada e um dia me encontrasse nos braos de outro homem... e se eu lhe dissesse que ele no era meu amante... acreditaria em mim, e no 
nos seus olhos?
     Law esboou um sorriso.
     - Ento, foi isso...? 
     - Eu pergunto se...
     - Sim. J sei. E respondo: acreditaria, sim, em voc. Conheo outras.... nas quais no acreditaria, nem que jurassem de joelhos. Mas, em voc... Basta olh-la 
nos olhos. Sabe? So lmpidos, no h sujeiras escondidas no fundo deles.
     - No pode saber se acreditaria ou no! - protestou ela.
     Porque era doloroso que um desconhecido acreditasse e aquele outro, a quem dera o melhor da sua vida, duvidasse.
     - Voc o ama ainda. - Law assentia. - Ainda o ama, porque ainda lhe di... a sua dvida.
     Brbara, por toda resposta; saiu, fechando a porta um tanto bruscamente.
     
     
Captulo 4
     - Vou dormir na sua casa, Ann. 
     Ann olhou-a. Mas ela estava escrevendo algo numa papeleta. Ann poderia ter perguntado muitas coisas, mas no o fez.
     - Est bem - disse, apenas.
     - No... pergunta nada?
     - No. Para qu? Estarei esperando no carro, como sempre. Isto ... a menos que fique no lugar da Maud. Ela arranjou outro namorado. Sabe? E quer ir hoje conhecer 
a famlia dele. Mas, se eu ficar, lhe darei a chave do meu apartamento.
     - Espere. Tenho outra idia... Fico eu no lugar da Maud, ento. No acha que ser melhor?
     - Bem. Se voc quiser... Olhe, a vem ela. Maud!
     A outra aproximou-se, sorridente.
     - Voc tira o meu planto, Ann? - perguntou, ansiosa. -  que h uma festinha na casa do meu namorado e...
     - Eu fico. Pode ir - interveio Brbara. - Tenho um caso especial aqui... E teria que ficar mesmo. Entende?
     Maud agradeceu, radiante. Brbara sentiu-se aliviada. Tratou de tomar conhecimento dos afazeres de Maud, que iria assumir naquela noite.
     Mais tarde, encontrou-se com a enfermeira-chefe, Jennifer. Uma viva de quarenta anos, muito humana, muito apreciada no hospital.
     Jennifer agarrou-a por um brao.
     - Venha c, Brbara... Maud me disse que vai tirar o planto dela... Que  que h com voc? Parece sobressaltada h dias... Penso que  por causa do seu paciente 
especial. No? Espero que ele no a incomode...
     Brbara hesitou brevemente. 
     - Refere-se ao Sr. Smith, por acaso?
     - Sim. A ele.
     - Oh! No! Claro que no me incomoda! Por que pergunta? Ter molestado as outras, por acaso? 
     - De maneira nenhuma!  corretssimo. Ningum tem queixa dele. Pelo contrrio! Um grande homem, aquele...! Enfim... estvamos falando de voc, Brbara. Parece 
que s trabalha e trabalha. No se diverte...! E anda preocupada, ausente...
     Brbara teve vontade de falar, desabafar, contar tudo quela mulher compreensiva e humana. Contar que Law a pedira em casamento... e que Burl a assediava com 
propostas sujas.
     Mas no tinha facilidade para desabafar. Sempre fora muito s, introvertida. Alm disso, teve medo. Se falasse... ele, Burl, ficaria sabendo. E ento espalharia 
o que bem entendesse... E em quem iria acreditar? Nela, ou nele?
      A dvida prendeu-lhe a lngua.
     
     - No esquea de ir ao quarto do Sr. Smith, s nove em ponto, Brbara - recomendou Maud, antes de sair.
     Brbara mordeu os lbios. Esquecera aquela obrigao! Com a preocupao de no ir para casa...
     - Que foi? No gosta dele? - indagou Maud. -  um homem maravilhoso! Ricao, bonito, jovem... e nada atrevido, nada abusado, como tantos outros... Correto, 
delicado, cheio de consideraes... No sei como ainda est solteiro! Mas parece que tem uma namorada... Uma gr-fina chamada Mag que vem visit-lo  tarde. Uma 
dessas de sobrenome retumbante...
     Era uma novidade. Tinha namorada, talvez noiva... e a pedira em casamento? Estaria zombando dela?
     - Est bem. Pode ir sossegada, Maud. Eu tambm gosto muito dele, sim.  muito educado e correto.
     Maud foi-se, feliz da vida, e ela comeou a sua ronda, tomando temperaturas, presses, aplicando injees... s oito estava no refeitrio, jantando sem apetite.
     Foi quando entrou Ryan, o jovem cirurgio. Um rapaz alto e louro, sardento, simptico.
     - Ol, Brbara... De planto esta noite? - saudou ele.
     - Fiquei no lugar da Maud.
     - Ah! timo! Estaremos juntos esta noite, ento. J jantou...? Vamos tomar um caf?
     Ryan era assim, brincalho, falador.
     Brbara sentia-se bem junto dele. Ryan irradiava otimismo. Mas adquirira o mau hbito de...
     - Como , Brbara? Pensou no que eu lhe disse, garota? Francamente, no a entendo. Sabe? Por que diz que nunca sai  noite? J a convidei mil vezes...
     Claro, e ia convidar de novo, e ia querer falar do futuro. Com aqueles ares de devoo que adotava junto dela.
     - J sabe que em breve deixarei este hospital. No, Brbara? Pretendo ir para Charleston, montar uma clnica... Gostaria de lev-la comigo, j lhe disse. Sei 
que ama a sua profisso. Mas eu no iria proibir que trabalhasse, mesmo estando casada comigo...
     - Voc  muito compreensivo, Ryan. Mas no posso aceitar. J lhe disse... No o amo. No  coisa que se faa ou se deixe de fazer simplesmente por querer, por 
vontade prpria.
     -  uma pena! Voc anda sempre to silenciosa, to s...
     - No me sinto s - mentiu. -  que... sou assim mesmo, Ryan. No posso mudar.
     Acabavam o caf e ela deu jeito de afastar-se dele. J estava quase na hora de ir ao quarto do Sr. Smith.
     
     
Captulo 5
     Ele estava recostado nos travesseiros, srio, com o seu ar franco. Brbara no saberia dizer o motivo, mas o certo era que a consolava v-lo ali, falar com 
ele, ainda que tivesse de recusar suas propostas.
     - Boa noite.
     - Voc aqui, hoje? - estranhou ele.
     - Fiquei no lugar de uma colega.
     - Ah!... timo. Venha, sente-se aqui... assim. No quero pensar que ficou no lugar da sua colega para estar comigo...
     - No... no pense.
     Ele sorriu. Tinha um sorriso suave, maduro. Ao seu lado, uma mulher como ela podia recuperar o equilbrio, a paz. Podia parecer absurdo, mas era assim.
     - Nem sequer me d esse pequeno consolo...
     - No estaria sendo sincera, se o fizesse.
     - Claro. E a por que acredito precisar de voc. Sabe que irei embora depois de amanh? Mas virei busc-la, para passearmos. Voc ir conhecer minhas plantaes. 
Quero que veja a minha casa. Estou como voc. Sabe...? Muito s.
     Falar com ele era como encher um vazio. Esquecer o que havia de desagradvel no presente e o pesadelo do passado. Esquecer a existncia de Burl. Pensou em mencionar 
Mag... mas no o fez.
     - No pensou no que eu lhe disse. No ?
     Ela arqueou as sobrancelhas, interrogativamente. Law esclareceu, olhando-a com firmeza:
     - No seu casamento comigo.
     - Seria... uma loucura, Sr. Smith.
     - Por causa do seu amor por Burl Newman?
     Pelo visto, sabia de tudo. Ou quase tudo...
     - O senhor sempre sabe tudo?
     - Tudo o que me interessa saber. Assim como ignoro o que no me interessa. E, ainda que lhe parea estranho, h coisas que no me interessa saber.
     Esteve a ponto de perguntar quais, mas absteve-se.
     - Diga.  por isso? - insistiu ele. 
     -  porque no o amo.
     -  to fcil amar!
     - Fcil, para o senhor?
     - Trate-me por voc. Sim? Eu gostaria muito.
     -  que...
     Law estendeu a mo para tomar a dela. Com uma delicadeza impressionante. De sbito, puxou-a, e ela teve que se inclinar para diante.
     - Senhor...
     - Isto  uma necessidade, Brbara - murmurou ele. - Fsica, ou espiritual, mas... intensa.
     E a beijou. Devagar, de um modo excitante. E por pouco tempo. Ao solt-la, ainda a olhou, bem de perto.
     - Assim a respeito - disse, simplesmente.
     E reclinou a cabea no travesseiro, fechando os olhos.
     - Sr. Smith... tenho que ir.
     Law no abriu os olhos. Murmurou apenas:
     - Fique mais um pouco e me perdoe. Dir que sou um tolo, hem? Na minha idade... apaixonado por uma menina como voc.
     - Disse que no era... amor.
     - Pois est comeando a ser. - Law abriu os olhos, fitou-a. - Por que no casa comigo e enche todo esse vazio da sua vida?
     - No tenho... vazios, na minha vida.
     - Sou velho demais para voc querer me enganar, Brbara.
     Law passara dos trinta certamente. Teria uns oito, dez anos mais do que ela.
     - Por que h de me ver assim, por dentro?
     - Isto, no sei. E no  a todo mundo que vejo. A voc, sim. E no exatamente por querer. Mas diga se estou enganado.
     No podia dizer. Por isso levantou-se nervosamente.
     - Tenho que ir, Sr. Smith. J passaram os vinte minutos.
     - E no me concede mais nem um?
     - No posso.
     J estava na porta, quando ele disse:
     - Eu tenho uma namorada. Pelo menos, algo parecido.
     Brbara virou a cabea, olhando-o, e ele sorriu.
     - Sim. No me olhe assim com este espanto. Chama-se Mag. Mas no quero me casar com ela. No a amo. E no concebo o casamento sem amor. Sem desejo, sem interesse 
especial. Tudo isto sinto por voc.
     Mas deixaria de sentir, com certeza, quando soubesse... E ela no poderia engan-lo, nunca. A um homem como ele, ningum poderia enganar.
     - Nem sei quando, nem como, comecei a andar com ela... ou quando algum comeou a nos considerar namorados. Mas eu nunca a iludi. Nunca lhe prometi uma aliana.
     Brbara escutava, sem saber o que dizer.
     - Sou contra o divrcio. Sabe? Embora no possa falar muito contra algo que desconheo. No tive a sorte de conhecer os meus pais, nem juntos nem separados... 
Mas, quando me casar, ter que ser com a certeza de que farei feliz a minha mulher, de encher a sua vida com a minha vida de homem. No com dinheiro ou presentes... 
Tenho que ench-la como homem.
     Fez uma pausa, mas Brbara continuou calada.
     - Mag no apareceu na minha vida nos meus tempos de joo-ningum. Apareceu quando eu j era algum na Comarca. Mas no a amo e lhe direi isso, se for preciso. 
 uma tima pessoa. Sabe? Bonita, fina, e tudo. Mas no a amo e somos de ambientes diferentes. No nos entenderamos nunca.
     Olhava-a fixamente, com aqueles olhos penetrantes, que contrastavam com o moreno da pele. Uma pele tostada pelo sol.
     - Nunca uma insolao me agradou tanto... - disse rindo, mostrando todos os dentes, muito brancos. - E j tive muitas... Mas parece que essa veio para determinar 
o meu destino. No acha? No diz nada?
     - No... No sei o que dizer, senhor.
     - Ser que o ama tanto... que nem pode pensar no sincero amor que lhe ofereo?
     - Senhor...
     - V. Est desejando ir... Est desejando pr em ordem as suas idias desordenadas.
     Era o inconcebvel para ela. Que aquele homem pudesse entend-la assim, ler os seus pensamentos, como se fosse uma continuao dela mesma.
     Por isso, fugiu dali. Ele podia encher a vida de uma mulher exigente. Quanto mais a dela, que no o era.
     Perambulou pelo hospital a noite toda, dando vazo  inquietude que a invadia. Mas, s seis da manh, foi chamada para comparecer ao quarto do Sr. Smith.
     
     
Capitulo 6
     - Ele... piorou? - perguntou  chefe.
     - Est com insnia, Brbara. Ande logo. J sabe que  o nosso paciente especial.
     Sabia, sim. E no pela sua importncia, mas pela sua simplicidade. Era por isso que todos o estimavam.
     Encaminhou-se para o quarto, como se lhe pesassem os ps. No que lhe desagradasse estar com ele. O problema era aquela capacidade dele, de lhe penetrar no 
intimo das pessoas.
     Bateu  porta, entrando em seguida. Ele a esperava.
     - Pensar que sou um abusado - disse ele, sorrindo.
     - No.
     - No pensa mesmo? Ainda bem...  que me sentia muito s, e no consegui dormir.
     - No dormiu... a noite toda?
     - Muito pouco. - Law ainda sorria. - E sonhei com voc. Dir que sou um tolo. Mas a verdade  esta: sonhei coisas de colegial. Andvamos num campo todo florido... 
Voc tropeava no sei em que e eu a tomava nos braos... Brbara, sente-se, por favor. Aqui.
     No queria mago-lo, inquiet-lo, dar-lhe iluses. Tinha muita considerao por ele. E lhe agradecia o bem que lhe estava fazendo admirando-a, quando ela sabia 
que nada tinha para ser admirada.
     - Tambm sonhei que colhia flores e lhe enfeitava os cabelos - acrescentou ela.
     - No  engraado? No ri...?
     No poderia. Porque aquilo a consolava, de certo modo. Tinha a impresso de estar ainda com dezesseis anos, sem ter conhecido Burl.
     - Brbara...
     Esperou, mas ele nada disso. Em vez de falar, estendeu a mo para segurar a dela, com aquela delicadeza sua.
     - Pa... pare - sussurrou Brbara, aflita.
     - Gosto de olhar suas mos. Suas mos e seus olhos... so o que h de mais bonito em voc.
     Levou aquela mo  boca e ela estremeceu da cabea aos ps. Quis retir-la, mas Law lhe beijava os dedos, um por um. E ento pareceu despertar nele a paixo, 
paixo de homem poderoso, absorvente... Beijou-lhe a palma, com os lbios abertos, e Brbara teve a sensao de estar sufocada, diminuda.
     - Pare... por favor! - sussurrou, puxando a mo.
     - Brbara... deixo este hospital dentro de dois dias e no suporto a idia de ir sozinho. No importa o que tenha acontecido com esse... Dr. Newman. Eu no 
olho o passado, mas, sim, o futuro. S me importa o futuro, com voc.
     Brbara levantou-se, trmula. Tinha a impresso de estar flutuando, de no ser ela mesma.
     - Dir que sou absurdo. No...? Em menos de um ms, pensar e sentir assim. No sei se amo mais do que a desejo, ou se  o contrrio... Isto tampouco importa 
muito. O que sei com certeza  que a farei feliz. Que desejo viver com voc um casamento completo, afetivo, sexual, espiritual, moral...
     - Sr. Smith...
     - Por favor, espere.
     Mas tinha mesmo que ir. Tinha que coordenar as idias,
     -  que tenho outras coisas a fazer, antes de sair.
     - No vai pensar?
     Pensaria, sim. J sabia que tinha de pensar, e muito, em tudo aquilo.
     
     - Mas... o que querer ele comigo? - indagou Burl.
     O Dr. Morton deu de ombros.
     - Quem sabe?  um sujeito caprichoso... Talvez tenha simpatizado com voc. Nesse caso, poder at montar-lhe uma clnica.
     Burl pestanejou, espantado.
     - Mas... por que faria isso?
     -  caprichoso. J disse. Tanto pode arruinar um amigo como enriquecer um inimigo. Assim, de estalo. Mas, em qualquer caso, sempre  justo. Se arruinar um amigo, 
ser porque ele merea... e se enriquecer um inimigo, ser por ter percebido que no era seu inimigo.
     - Todos os milionrios so assim... - grunhiu Burl.
     - Mas este, antes de ser milionrio, foi praticamente um mendigo. Isto  que devemos levar em conta, para sermos julgados, admirados ou desprezados por ele. 
Eu o conheo bastante.  um sujeito que sabe o que quer e o que faz.
     Burl assentiu, saindo para o corredor. E a primeira pessoa que viu foi Brbara. Ela ia passando, mas Burl interceptou-a.
     - Ento, para me evitar, no foi para casa, hem?
     Desafiava-a, e ela o olhou, sentindo-se magoada. Ainda o amava... Pelo menos, pensava que sim. E lhe doa muito ver o quanto era mesquinho.
     - No vai adiantar nada - dizia ele, seguro de si. - J sabe. Tem duas semanas para aceitar... a minha proposta. Se no se decidir... ter que deixar seu emprego, 
porque no suportar a vida aqui.
     - Seria... capaz?
     - No quisera ser. Mas, se me obrigar...
     - Que cinismo!
     - Ora, vamos.. Deixe de adjetivos... Ser melhor que me d logo a sua chave. Sabe?
     Brbara quis continuar o seu caminho. Burl agarrou-a por um brao, com certa violncia. Mas algum surgia pelo fundo do corredor e ele teve que solt-la. Ela 
se foi, depressa.
     
     - Entre.
     A voz de Lawrence soava serena, firme. E o seu olhar foi igualmente sereno e firme, ao encarar Burl. Ao analis-lo, como que penetrando no seu crebro, na sua 
alma.
     - Bom dia, Sr. Smith...
     - Bom dia, doutor. Queira sentar-se, por favor.
     - Dizem que ter alta amanh... Certamente se levantar esta tarde mesmo...
     - Vou me levantar to logo o senhor saa deste quarto. J chega de cama. Mas, primeiro, temos que conversar.
     Burl estava um pouco tenso, ante o olhar perscrutador do milionrio. Procurava imaginar o que quereria dele... Mas se surpreendeu, e muito, com a primeira pergunta 
que ouviu:
     - No vai casar com ela? 
     Burl poderia ter esperado qualquer coisa, menos aquela. Pareceu retesar-se na cadeira.
     - Como... como disse?
     - Para o senhor,  um jogo, uma brincadeira. No?
     - Mas, Sr. Smith... no entendo. 
     Law meneou a cabea. Detestava as pessoas que no o entendiam logo s primeiras palavras. Decidiu ser mais direto.
     - O senhor no se estabelece por falta de meios. No?
     - Mas, Sr. Smith...
     -  ou no ?
     - Bem... sim. .
     - Onde deseja estabelecer-se? 
     Dir-se-ia que estava tratando da compra de um terreno. Mas j sabia com quem estava lidando, e sabia que podia lidar com ele daquela maneira. No era culto, 
mas tinha um dom especial para a Psicologia.
     - Em Charleston? - sugeriu.
     - Mas, Sr. Smith. Eu... 
     Law apanhou algo de uma mesinha. Um cheque.
     - Tome isto e v embora, Poder montar a sua clnica no melhor bairro de Charleston. - Sorriu, desdenhoso. - Com os mdicos, acontece o mesmo que com as moas 
casadouras... Podem no ter dote, nem um centavo. Mas, se moram num lugar conveniente, numa bela casa... geralmente conseguem casar conforme os seus projetos e desejos, 
porque os homens pensam que so ricas... Certos homens,  claro. No me refiro a todos.
     Law fez uma pausa, olhando o interlocutor apalermado. 
     - Como tampouco me refiro a todos os mdicos, quando digo que, estabelecendo-se num bairro rico...
     Burl conseguiu reunir foras para protestar:
     - Eu sou um mdico por vocao.
     - No duvido. Mas certamente preferir clientes ricos.
     - Todo o mundo procura melhorar, subir...
     - Justamente, e s h dois tipos de melhoria: uma, a que se consegue por esforo prprio. E a outra, que se compra ou se troca por algo. Eu lhe ofereo a segunda.
     Burl levantou-se num salto. Sentia-se ferido. Sua dignidade profissional, sua vocao, sua hombridade...
     - Sente-se, doutor - pediu Law, sem contemplaes.
     Porque j conhecia o homem que tinha  sua frente. Se ele fosse Burl - e Law costumava julgar as pessoas por si mesmo - j estaria longe daquele quarto, j 
lhe teria jogado o cheque na cara. Mas ainda estava ali, com o cheque na mo...
     - O senhor no a ama, doutor. E, se no a ama, por que a fere, por que a faz sofrer?
     Burl tornou a levantar-se.
     - Sr. Smith, no sei o que o senhor sabe. Mas... se quiser, posso dizer-lhe...
     - No. No quero saber de nada. 
     Burl olhou-o com espanto. E lanou mais um olhar ao cheque, tentando contar todos aqueles zeros. Ali estava uma quantia... fabulosa. Poderia estabelecer-se 
no melhor ponto de Charleston, casar com alguma mulher da alta sociedade...
     Passou a lngua pelos lbios e ousou perguntar:
     - O senhor a ama, ento? 
     Ambos sabiam a quem se referiam.
     - Sim.
     - E prefere ter o campo livre.
     - Engana-se. No sou dos que precisam de campo livre. Sei abrir o meu caminho, sempre soube, e o fiz. O que eu prefiro  afastar algo desagradvel da vida dela. 
E apagar, com uma penada, esse passado que me desagrada. V embora amanh mesmo.
     - Mas...
     - Amanh, doutor.  o prazo. Nem um dia mais.
     - Escute...
     Law estendeu a mo.
     - Quer, por acaso me devolver o cheque?
     Claro que no. Burl apertou-o mais, instintivamente, entre os dedos crispados. Sentia-se ferido, humilhado, envergonhado. Mas... certo de que ia ter um futuro 
brilhante.
     E isto era importantssimo. Mas s o conseguiria se agarrasse aquela oportunidade com unhas e dentes.
     Por isso, levantou-se. E se encaminhou para a porta, metendo o cheque no bolso, sem despedir-se.
     Law seguiu-o com a vista. No esperara que Burl se despedisse mesmo. Conhecia aqueles tipos mesquinhos.
     Reclinou a cabea para trs, fechando os olhos, suspirando. Com imensa tristeza... pelo gnero humano. Experimentava uma profunda compaixo, mista de desprezo.
     Sem querer, recordou a sua adolescncia de penrias. Quantas vezes o capataz lhe mostrara dinheiro, propondo um trato qualquer para enganar o patro...
     Mas ele sempre lhe voltara as costas e se afastara, cheio de dignidade nos seus andrajos.
     
     Ela estava arrumando umas ataduras, preparando umas gases, quando as colegas se aproximaram, conversando entre si.
     - Sim. Acaba de se demitir... h duas horas atrs.
     - Sujeito de sorte, hem?
     - Mas ser verdade que vai montar clnica? Se no tinha um centavo...
     -  o que eu disse: sujeito de sorte.
     Brbara no sabia a quem se referiam. Mas no perguntou. No era curiosa e estava bem cheia com os seus prprios problemas, para interessar-se por outras coisas.
     - Deve ter acertado na loteria, ento...
     -  o que dizem.
     - Mas... ser verdade mesmo?
     - S sei que se demitiu. Rompeu o contrato que tinha assinado por um ano. E ele o assinou h menos de quinze dias!
     As ltimas palavras penetraram no crebro de Brbara. Estariam falando de Burl...? No havia outro mdico novo ali...
     - Esto falando do Dr. Newman? - perguntou.
     - Dele mesmo. Vai montar clnica em Charleston. O que no sabemos  de onde tirou o dinheiro. Mas o certo  que se foi, despediu-se de todos os que encontrou 
pelo caminho...
     Dela, no. Certamente, desistira ento... Seno a teria procurado antes de ir. Melhor. Quisesse Deus que a esquecesse para o resto da vida!
     Claro que a esqueceria, se estava rico, como diziam. Iria procurar alguma mulher de boa posio social... A idia deu-lhe algum alvio.
     Mais tarde, ao encontrar-se com Ann, tocou no assunto.
     - Ah! Eu j sabia - disse Ann. - Deve ter sido alguma herana ou loteria...  o que dizem. Melhor para voc. No? Indo embora, certamente a deixar em paz.
     Mas doa. Porque, apesar de tudo, ela o amara, e ainda restavam vestgios daquele amor.
     Trabalhou como um autmato, durante todo aquele dia. E, ao anoitecer, antes de sair, foi ver o seu paciente especial, como de hbito.
     Estranhou-o, ao v-lo de p. Nunca o vira de p. No era propriamente alto. mas dava esta impresso. De estatura normal, bem proporcionado, vigoroso...
     - No sabia... que j estava de p - murmurou.
     - Claro, se vou embora amanh, ser melhor que me habitue a caminhar de novo...
     
     
Captulo 7
     No era fcil encar-lo, sustentar o seu olhar, v-lo assim, de p, com aquela sua personalidade marcante... Ficou parada, encostada  porta fechada, mordendo 
os lbios.
     - Bem, eu... - comeou, hesitante. -  que j vou, senhor.
     Law avanou para ela, fitando-a, mos cruzadas s costas. Analisava-a, perscrutando o seu semblante, seus olhos azuis.
     -  possvel que eu no esteja aqui, quando voc voltar, amanh, Brbara - disse pausadamente. - Nunca fiquei tanto tempo num hospital... e, daqui por diante, 
terei mais cuidado com o sol. Seja como for, agora me alegra ter sido descuidado, porque, graas a isso, a conheci.
     Fez uma pausa, mas Brbara continuou calada, fitando-o, tambm, como se no pudesse desviar a vista.
     - No pense que  fcil encontrar uma mulher como voc - continuou Law. - Que diga tanto a um homem como eu. No que eu tenha tido tempo para conhecer muitas 
mulheres... mas sempre se conhecem algumas. Como voc, entretanto, nunca tinha encontrado nenhuma.
     Silncio novamente. Brbara baixara vista, afinal, pensando que gostaria de ficar ali, para ouvir sempre aquela voz consoladora, para sentir a fora que emanava 
dele, do seu equilbrio moral...
     Moveu as mos, sem querer, juntando-as sobre os seios. E se arrependeu em seguida, porque ele disse:
     - Suas mos sempre me fascinaram. Sabe? Suas mos e seus olhos. Mas, claro o que admiro acima de tudo numa mulher so as suas qualidades morais. Defeitos e 
virtudes. No gosto de pessoas com demasiados defeitos ou virtuosas demais. H o meio termo ideal, e voc est nesse caso.
     Outro silncio. Law tambm moveu as mos, para tomar as dela, com aquela sua suavidade quase enervante. Brbara quis desvencilhar-se, mas desistiu. E ele lhe 
apertou um pouco mais as mos.
     - Brbara, no sou um homem perfeito... mas estou disposto a oferecer-lhe a minha pobre imperfeio. Una-se a mim. Venha caminhar ao meu lado. Esquea o passado, 
se o tem...
     - Tenho-o - cortou ela, bruscamente.
     - Pois pode guard-lo para si. Ou, melhor, trate de esquec-lo. Eu lhe ofereo a tranqilidade, a paz, ao meu lado. Em troca de algo, evidentemente. Porque 
preciso de voc, quero que seja a minha mulher, minha de verdade.
     - Eu... no o amo.
     - Aprender.
     Brbara retirou as mos, tornando a junt-las, agora sob o queixo. Sua voz soou sufocada.
     - Isto  muito... problemtico. E, se no conseguir, se no chegar a am-lo, apesar dos meus propsitos?
     - Conseguir. Toda pessoa emotiva, como voc, aprende a amar. A menos que tenha algum motivo para odiar ou desprezar. Ou permanecer indiferente. No  o nosso 
caso. E eu encherei a sua vida. Sua vida fsica e sua vida afetiva.
     Estava confusa demais. Seus sentimentos estavam confusos. No podia saber se chegaria a am-lo ou no. Sentia-se grata, isso sim, pelo bem que lhe fazia naqueles 
momentos to difceis... Mas gratido no era tudo.
     Girou, querendo sair dali, fugir. Mas, antes que abrisse a porta, ele a segurou pelos ombros.
     - Brbara, pense no que eu disse - pediu, quase encostado nela. - Eu a procurarei, aqui ou na sua casa. Porque no poderei passar sem voc. No me pergunte 
se a amo muito ou se a desejo mais. S sei que, acima de tudo, preciso de voc, fsica e emocionalmente. Do seu passado, do amor que tenha tido por outro homem, 
no me fale.
     Ela queria sair, mas Law a segurava. E a fez girar, abraando-a, beijando-a na boca outra vez. Um pouco excitado, meio alterado...
     Beijou-a de um modo que, quando a soltou, Brbara estava com a sensao de que ele a possura.
     - Assim  o meu... meu interesse por voc - disse ele.
     E ento ela se voltou e fugiu dali.
     
     Quando saiu do elevador, viu-o ali,  sua espera. Sorridente, melo divertido, meio sarcstico.
     - Como v, no tem escapatria, Brbara.
     J sabia. Por isso demorara a ir para casa. Sabia que ele no iria embora sem procur-la mais uma vez, para insistir...
     - Vim busc-la - continuou Burl, muito tranqilo.
     Teria que entrar e deix-lo entrar tambm. De nada serviria fugir. O jeito era enfrentar a situao, como pudesse.
     Acendeu a luz, deixando a porta aberta. Ouviu como ele a fechava, e ento se voltou. Burl dizia:
     - Vou para Charleston, montar uma clnica minha, como desejava. Um parente meu me nomeou seu herdeiro. Imagine... Que sorte, hem?
     - Muita sorte, sim. Meus parabns.
     - Voc vai comigo, querida. Pode fazer a mala.
     - No vou.
     E, de repente, pensou no recurso que seria Law para ela. Porque Burl no parecia disposto a desistir, nem parecia ter ouvido a sua resposta...
     - No posso lhe oferecer casamento - dizia. - Compreenda isto. Mas quero lev-la, tenho que lev-la comigo.
     Brbara respirou fundo.
     - Est acabando com a pouca considerao que eu ainda tinha por voc - respondeu.
     - Deixe de dramas, de tragdias antiquadas, garota. A realidade  esta: vou embora, vou me estabelecer e lhe ofereo um lugar ao meu lado.
     - E eu o recuso.
     - Vamos. Pense um pouco... - Burl sorria, desdenhoso. - Ainda posso deixar para trs algo que a destrua. Posso contar que foi minha, que...
     Ela sacudiu a cabea. Estava decidida. Suportaria tudo. At mesmo o desprezo de Law Smith. Mas no aceitaria algo que no tinha mais sentido.
     Por amor, tudo. Sem amor - e ainda por cima,  fora - nada. De maneira nenhuma.
     - No vou com voc. Esquece que me deu um prazo de um ms.
     - Duas semanas.
     - Pois bem. Mas ainda no passaram...
     - O que quer dizer com isto? 
     Ela deu de ombros.
     - Eu seria uma tola se quisesse convenc-lo de que nunca o tra... Mas deixe-me dizer-lhe que aquele homem, que pensou que fosse meu amante, era... ... meu 
tio. Esteve preso, conseguiu a liberdade de algum modo, e foi me procurar, perguntar se eu poderia ajud-lo... Era o nico irmo do meu pai e eu o amava muito quando 
menina... Agora est no Canad e posso lhe dar o endereo dele para...
     Burl interrompeu-a com um gesto. No queria mais explicaes. No as quisera, no momento crucial, nem as queria. Era certo que pretendera casar com ela, logo 
de incio. Mas, depois... se cansara, simplesmente.
     Fosse como fosse, continuava gostando dela e a queria.
     - Nada disto interessa - declarou. - Voc vai comigo, e pronto. Isto  que interessa.
     - No irei agora - murmurou Brbara. - V voc primeiro.
     - E voc...?
     - Irei... depois. Ou venha me buscar.
     
     
Captulo 8
     Maud ficou olhando para ela, assombrada.
     - Mas... est de planto hoje?
     - No.
     - Ento o que faz aqui? 
     Nem ela mesma sabia. Simplesmente se vira a caminho do hospital, aps a entrevista com Burl.
     -  que me lembrei... da injeo do Sr. Smith - mentiu.
     Maud via uma novela em cada ser humano. Por isso indagou:
     - Gosta muito dele?
     - Como...? O que est dizendo?
     - Pergunto se gosta muito do milionrio.
     A mesma pergunta que ela comeava a fazer a si mesma. No achava que gostasse dele, mas, de que o necessitava, j tinha certeza.
     - No sei...
     -  maravilhoso, ele. No ? E dizem que  um sujeito muito generoso. Que no h outro igual em Macon.
     Isso tampouco importava muito. No estava em condies de analisar. Precisava de amparo, isto sim...
     Ia dizer que sim, refletia, a caminho do quarto. Teria que lhe contar tudo, e seria duro. Muito duro, ter que descer dessa maneira.
     Algum iria compreender? Tinha apenas dezessete anos, e se sentia s e desamparada, quando aquilo comeara... Durara um ano e pouco. Ento, reaparecera o Tio 
Louis, e Burl pensara que... que ela no era decente. E ela fugira.
     Agora estava com vinte e dois anos. E com uma experincia amarga no seu passado. Uma triste experincia.
     Quando chegou  porta do quarto, sentiu-se fraquejar. Viu a si mesma, parada ali, achou-se absurda. Contar-lhe tudo...? Poderia? Teria coragem?
     Retrocedeu devagar, silenciosamente, sem se dar conta do que fazia. S sabia que no poderia entrar naquele quarto.
     Chegou cedo ao hospital. Uma hora antes do que deveria. No pudera dormir a noite inteira. Refletindo, procurando um modo de resolver o seu problema.
     Mas s via um: aquele casamento com Law Smith. Seria duro, casar com um homem a quem no amava. Porm mais duro seria ter que ir com Burl.
     Sabia que no iria ou, melhor, que no queria ir. Mas, se ele voltasse, e a encontrasse tal como estava, desamparada, no a dominaria? Pelo menos, desgraaria 
a sua vida, novamente...
     - Entre.
     Aquela voz, to pessoal... Uma voz que a obrigava a fechar os olhos. Que consolava, equilibrava...
     - Voc! - exclamou Law, ao v-la. - To cedo assim...?
     -  que....
     Ele a olhava, com expresso estranha. E perguntou:
     - Voc esteve aqui, ontem  noite...? Andou por este corredor, pelo menos...?
     - Estive.
     - Ah! Bem que eu tive a impresso... E no veio me ver?
     - Eu vi... vinha. Mas... no entrei. Fui embora.
     No sabia de onde tirava foras para falar. Gaguejava. E ele a olhava, meneando a cabea.
     - Pois fez muito mal, sabe? Eu estava acordado e senti que voc vinha... No ouvi seus passos, nem nada. Pressenti.
     - Sr. Smith, eu...
     - Voc vem muito... solene hoje. Que  que h?
     -  que...
     - Vamos. Fale, fale.
     -  que... se continua disposto a... me oferecer a sua ajuda... eu... aceito... quero dizer, me caso com o senhor.
     - Assim...
     Ele a fitava, do seu jeito perscrutador, avaliador.
     - Sim.
     - Ele foi atrs de voc?
     Era horrvel que abordasse o tema assim. Com aquela simplicidade esmagadora. Por isso lhe faltou a voz e assentiu.
     - Ah... - Law se mostrava cauteloso agora. - Dizem que... ele vai embora... 
     Ela assentiu de novo.
     - E pretendia... lev-la com ele. 
     Novamente assentiu.
     - E voc tem medo de... acabar indo. 
     No havia necessidade de afirmar. Ele sabia, Ficou paralisada, sentindo-se gelada. At que ele lhe tomou as mos, com muito carinho.
     - Voc... voc o ama ainda? 
     Uma pergunta direta. Tudo nele era assim. Direto, franco.
     - Tenho medo dele.
     - S medo?
     -  que...
     Ele j sabia. Era to fcil penetrar naquele peito, naquele crebro, conhecer-lhe os sentimentos, os pensamentos! Muito fcil, e, por isso mesmo, mais doloroso.
     - J sei - disse. - No precisa falar mais.
     Brbara agitou-se, aflita, angustiada. Quase gemeu: 
     - No sabe. No pode saber... No pode! Eu s tinha dezessete anos, estava sozinha, e o amava...
     - No precisa falar mais, eu disse. No quero saber. Nada.
     - Mas...
     - Brbara, no estou tomando o seu passado e, sim, o seu presente e o seu futuro. Eu tambm tenho o meu passado. Todos ns temos... E cada um tem a sua maneira 
de ver as coisas, e a minha  essa. J me disse o que eu queria que dissesse. Portanto, cale-se agora. Nos casaremos em seguida. Pode pedir a sua demisso.
     Beijava-lhe as mos, delicadamente, olhando-a nos olhos. Brbara mordeu os lbios. Respirou fundo.
     - Mas, e se depois... isso vier a ser...?
     - Eu conheo a vida - cortou ele. - Com todas as suas misrias, suas alegrias, suas tristezas, suas pequenas e grandes satisfaes. E acredito conhecer bastante 
o gnero humano. To desconcertante... s vezes to brilhante, s vezes to mesquinho...
     - O senhor  bom demais.
     - No vai aprender a me tratar por voc? - disse Law, sorrindo. - E a me chamar pelo nome? - E, sem transio: - Sabe. Eu no suporto certas situaes. Desculpo 
os pecados, as faltas dos outros. Mas tambm odeio. E, se quisesse, destruiria para sempre, num instante, a vida de Burl Newman. Mas me basta a sua existncia. Que 
no o veja mais.
     Brbara no se perguntou, naquele momento, quanto teria ele a ver com as novas perspectivas de Burl. Nem imaginou que ele tivesse algo a ver com a tal... herana.
     - Tenho pensado em voc e no nosso futuro... - dizia Law, baixinho. - Nos filhos que teremos...  assim que a vejo. Brbara. Como me, como fiel e dedicada...
     Ela confessou, num arranco:
     - Ele me encontrou abraada com outro homem e...
     - Cale-se!
     - ...era o meu tio! Acabava de sair da priso... arranjei-lhe algum dinheiro, do pouco que eu tinha e... ele se foi, para o Canad... Mas "ele" no quis saber 
quem era...
     - Est bem. Agora, que j me disse, que j, desabafou, esquea tudo isso - pediu Law. - Tinha mesmo muita necessidade de falar. No ? Pois falou, acabou-se. 
Amanh nos casaremos. Isso  tudo que lhe deve interessar, daqui por diante. 
     - Sr. Smith... 
     Law cobriu-lhe a boca com os dedos, sacudindo a cabea.
     - V, agora, tratar da sua demisso. Estou de sada, e voc vai comigo. Pea a alguma colega que a substitua hoje. Quero mostrar-lhe logo tudo aquilo. Sabe?
     Brbara suspirou, assentindo. Se fosse falar... teria tantas coisas a dizer que... seria prefervel mesmo fechar a boca.
     Girou, para sair, obedientemente. Mas ele ainda disse:
     - Brbara... voc est com medo. No ?
     Estava. Medo do passado, que no se podia apagar de todo. E do presente, que poderia ser diferente do que imaginavam. E do futuro, que...
     - No deve ter medo - acrescentou ele - No tenha medo.
     Dizer era fcil. Mas havia tantas coisas... temveis. A volta de Burl, por exemplo. Sua ira. Tudo o que poderia dizer, despertando na mente de Law uma lembrana 
que ele queria ignorar...
     Foi andando devagar pelo corredor e se encontrou com Ann.
     - Brbara! J est aqui...? Estive telefonando para o seu apartamento, e...
     - Eu vim... cedo. - Respirou fundo, mais uma vez. - Vou me casar.
     Ann sobressaltou-se.
     - O qu! Com o Burl...? 
     Brbara quase riu. Estava confusa, nervosa, angustiada... Mas seus olhos brilharam naquele momento. Seus cabelos tambm, quando sacudiu a cabea.
     - Com o Sr. Smith.
     - Oh!
     - Amanh. Deixo o hospital hoje mesmo. Agora. Ele... quer me levar logo para conhecer a sua casa.
     Ann agarrou-a por um brao. Olhou-a muito de perto, como se quisesse entrar pelos seus olhos.
     - Brbara... voc est certa...? 
     No estava. No estava certa de nada.
     S mesmo de que ia casar. De que fazia bem, no.
     - Brbara, querida... veja bem o que vai fazer!
     Se nem sabia o que fazia! Sabia que, se ficasse ali, Burl voltaria, e ela lhe diria "no", e ele contaria a todos o que houvera entre ambos...
     Agarrou a mo que a amiga pusera no seu ombro, apertou-a com desespero.
     - Chegarei a am-lo muito. Voc vai ver! - sussurrou.
     - Nem voc mesma est convencida disso.
     No estava. Era o pior. Mas, fosse como fosse... casaria.
     
Captulo 9
     - Aqueles so os alojamentos dos empregados... e as casas dos mais categorizados... Mais adiante, os armazns...
     O olhar se perdia nos vastos campos de algodo. Era a poca da colheita e incontveis trabalhadores se moviam por l.
     A casa-grande era de pedra, com terraos ajardinados, rodeada por uma cerca alta, de ferro, as barras entrelaadas por trepadeiras e arbustos.
     - Eu mesmo levantei isto - dizia Law, em voz baixa, vibrante. - Por isto amo cada punhado de terra, cada pedra...
     Estava parado atrs dela, muito perto. Brbara pousava as mos na varanda, escutando-o, olhando a propriedade...
     - No sair mais daqui. Sabe? Amanh  tarde vir o Pe. Edward e nos casar. Convidei o pessoal do hospital. Todos a apreciam muito, e os que puderem vir viro.
     Ela nada dizia. Law enlaou-a pelos ombros, atraindo-a.
     - No se arrepender; pode ter certeza - murmurou.
     Brbara virou a cabea, olhando-o.
     - Por qu? - indagou.
     - Por que... o qu?
     - Por que se casa comigo, assim... sabendo qu...?
     Law no sabia. No a amava com a fora que impele ao casamento. Gostava dela, desejava-a, sim, admirava suas qualidades... Isto lhe parecia suficiente.
     - Que importa! - sussurrou. - Que importa!
     - Importa muito.
     - Nada.
     Beijou-a de leve, na boca, dando o assunto por encerrado.
     - Sabe que ainda estou meio enfraquecido...? - murmurou. - Vou descansar um pouco. E voc, v dar umas voltas por a, conhecer tudo... Fale com os colonos, 
com os pees, com a criadagem...
     - Pessoas desconhecidas, que talvez nem estejam querendo me ver por aqui...
     - Todos eles me querem bem - replicou Law, seguro de si. - Tenho feito o possvel para isso. Eles me conhecem e me querem bem. E desejam me ver feliz, portanto. 
Isso desfaz a sua dvida, o seu receio?
     Olharam-se, nos olhos, como que medindo-se mutuamente, avaliando-se... Brbara sentiu as mos de Law subirem da sua cintura, pelas costas.
     - Pare - pediu, num murmrio. - Pare.
     - Por qu? Gosto de toc-la, acarici-la...  uma necessidade. Sabe? Fsica, moral, espiritual... em todos os sentidos.
     Inclinou-se, de sbito, e a beijou em cheio, gulosamente. 
     - De... deixe-me...!
     No podia deix-la. Ia percebendo o quanto gostava dela. Nunca estivera apaixonado. Mag...? Mag era uma amiga. Certamente ficaria aborrecida, ao saber que ele 
se casava com outra. Mas ele nunca lhe prometera nada, nem sequer insinuara.
     Porque nunca a desejara, como desejava Brbara - pensou, tornando a beij-la.
     Ela se sentia sufocar, palpitante. Experimentava sensaes que a deixavam confusa. No se dava conta de que comeava a amar aquele homem. Tudo era muito complexo 
e contraditrio.
     - Chega... solte-me! - sussurrou, assustada.
     Law soltou-a, de imediato. Por um instante, seus olhos se encontraram. E, estranhamente, foi ele quem desviou primeiro a vista, para olhar ao longe.
     - No sei ao certo se a amo ou se apenas desejo am-la... - murmurou, como que pesaroso. - Mas sei que vou faz-la feliz. Isto eu sei, sim.
     Assim dizendo, girou nos calcanhares e entrou na casa. Mas ainda se voltou para repetir:
     - D umas voltas por a. V conhecer a minha gente... Eles certamente estaro desejando v-la de perto...  preciso que a conheam e que voc os conhea.
     Ao ver-se sozinha ali, no alpendre, teve uma sensao de vertigem. Como se tudo girasse ao seu redor. Tal como quando Law a beijara, um momento, em plena boca.
     Assim que desceu ao ptio, viu o carro-esporte vermelho que entrava no parque, dava a volta e ia parar diante da cavalaria.
     Ficou parada, olhando a jovem elegante e bem vestida que descia dele e olhava em tomo, com uma expresso entre soberba e temerosa.
     Mag? Seria aquela, ento, a moa que...?
     A jovem avanou, pisando firme, parando diante dela.
     - Voc  Brbara Scott - disse.
     - Sou.
     - Eu sou Mag, a noiva de Lawrence Smith.
     Brbara, a princpio, no sabia o que fazer. Mas, subitamente, algo despertou nela. Mas tampouco soube o qu. Uma dor? Raiva, orgulho...?
     O certo foi que se encontrou respondendo:
     - Lawrence Smith e eu nos casaremos amanh.
     Viu a outra enrubescer, como que crescer, inchar...
     - Mas... como se atreve a dizer isto? De onde a tirou, ele?  um capricho...?
     - Quer dizer que ele ... caprichoso? 
     No o era. Mag no podia dizer que sim, e mordeu os lbios. Law podia ser um milionrio, mas nada tinha de caprichoso.
     - Sou namorada dele h muito tempo - disse, depondo a sua soberba.
     - Sinto muito.
     - Eu o amo.
     - Ter que dizer isto a ele. 
     Mag fitava-a, tentando avali-la.
     - Acha que ser capaz de faz-lo feliz?
     Ouviram pisadas e Law j estava ali entre ambas, passando um brao pelos ombros de Brbara.
     - Ol, Mag... Foi bom que viesse. Assim posso apresentar-lhe logo a minha noiva, Brbara Scott. Brbara, a Mag  uma velha amiga muito querida.
     Tudo estava dito. Mag sentiu-se absurda, deslocada. Tanto tempo perdido, tentando conquist-lo...
     No teve foras para dizer mais nada. Quisera mostrar-se indiferente, altiva... qualquer coisa. Mas no pde. Girou nos calcanhares, para ir embora.
     Aquilo doa. Porm mais ao seu orgulho que ao seu corao. E tinha de reconhecer que Law jamais alentara suas esperanas, nunca a iludira com promessas...
     - Mag, espero que continuemos amigos - dizia ele. - Que no leve a mal.  que os sentimentos mandam. Em mim ter sempre um amigo, amigo verdadeiro. Mas no 
um amante. Esta  a verdade.
     Mag foi-se. E Law apertou mais o brao nos ombros de Brbara, murmurando:
     - Isto  tudo. Ai tem a explicao que desejava. J sabe por que quero me casar com voc.
     - No o tinha dito...
     - Pois digo agora. Eu procurei na Mag o que desejava... mas no encontrei. Nem nela, nem nas outras, a quem conheci. E encontrei em voc. Agora j sabe.
     
     Ele lhe dissera:
     - Pode ir... daqui a pouco irei tambm.
     E ali estava ela, no quarto luxuoso, confortvel. Estendida na cama, olhando fixamente o teto. Sentindo-se encurralada. Como que vazia de sentimentos, de pensamentos... 
toda ela, oca completamente. Inerte.
     No se ouvia mais barulho nenhum na casa. Devia ser muito tarde. No sabia h quanto tempo estava ali... nem importava.
     Outras coisas importavam. Estava casada agora com aquele milionrio... A cerimnia tivera lugar  tarde. Law convidara bastante gente. Mdicos do hospital, 
enfermeiras e seus amigos particulares. No imaginara que Law tivesse tantos amigos.
     No soubera quando nem como pronunciara o "sim". Mas sabia que o pronunciara. Que houvera um banquete, que Law a beijara de leve nos lbios, que todos os convidados 
tinham feito questo de abra-la e beij-la tambm...
     Quando, afinal, viu o salo deserto, teve conscincia de algo muito mais concreto. Soubera que ento, sim, comeava realmente o problema para ela.
     E ali estava, esperando Law... seu marido. Seu marido!
     Ouviu pisadas e ficou tensa, no meio do leito enorme. Ali comeava a sua vida, sua vida ntima. Tantos anos sem ter um homem...
     - Posso entrar, Brbara?
     Aquela voz consoladora, equilibrada, afvel... clida.
     E se dissesse que no? Se lhe dissesse que... Mas no. No podia dizer nada. Quando lhe dera o "sim" j sabia a que se expunha. Ele lhe dissera que a desejava, 
queria que ela fosse sua mulher de verdade, inteiramente sua.
     - Brbara... posso entrar?
     Deslizou da cama, levantando-se. Envolta num penteador fino, macio, os cabelos um tanto revoltos.
     - En... entre, Law. 
     Ele entrou, ereto, firme, seguro de si. No era muito alto, nem bonito. Mas era todo um homem. Um verdadeiro homem, sereno, de personalidade marcante.
     - Estive pensando... - disse, com simplicidade. - Se devia vir, ou dormir no meu antigo quarto.
     Avanava enquanto falava, olhando-a com calma. Parou  sua frente. E levantou as mos devagar, para segur-la pelos braos, pux-la suavemente para si.
     - Gosto de estar com voc - sussurrou.
     Sua voz soava rouca, diferente, como que confusa.
     - No tive coragem para ficar longe de voc - acrescentou. - Tenho que comear a saber hoje mesmo, agora, quanto e como preciso de voc...
     Beijava-a... e Brbara no sabia o que sentia.
     
     Preferia estar sozinha. No que quisesse pensar... Queria ficar s, apenas isso. Para no sentir aquela vergonha que lhe coloria as faces.
     Mas Law, ao sair do banheiro, portava-se com uma naturalidade que a fez quase esquecer a vergonha.
     - O dia est maravilhoso - exclamou ele. - E eu tenho que ir s plantaes... Estarei em casa  hora do almoo. Certo? 
     Aproximava-se dela, com aquela sua simplicidade, beijando-a nas faces, nos lbios, de leve. Agora vestia trajes de montar e parecia outro.
     - V dar um passeio, querida. O parque  grande.
     - Sim. Mais tarde...
     Ele sorriu, um sorriso brilhante, olhando-a de perto.
     - Sabe... sinto que a estou amando muito - disse, acariciando-lhe as faces, com ternura. - Vamos. Trate de vestir-se e sair para respirar l fora, tomar sol... 
Dentro de uns dois meses faremos uma viagem... quer?
     - Uma viagem...?
     - Sim. Uma bela viagem. Voc vai gostar, garanto. Deveria ser agora. No? Mas no d... estamos em plena colheita.
     Tornou a beij-la, como se no se decidisse a deix-la. Um beijo prolongado e suave, com certa dose de paixo. Logo, soltou-a e lhe virou as costas.
     - Ter que aprender a me conhecer - disse, com estranho acento. - Quero que a minha mulher... me compreenda.
     Ela o compreendia. Gostava de ser amada por ele. Law era dos que podiam encher completamente a vida de uma mulher. Porm ela ainda estava amedrontada... Sobretudo, 
espantada do seu prprio materialismo,
     Como era possvel que, amando a outro homem... gostasse de ser a mulher de Law?
     - Tem que aprender a corresponder s minhas... ansiedades, meus desejos - acrescentava ele.
     Isto seria o mais difcil. No que no correspondesse... O problema era que ele a inibia, com a sua paixo, seu vigor, seu jeito possessivo.
     - Voltarei to logo possa. Ouviu? 
     E, j na porta, acrescentou, olhando-a de novo:
     - Sinto que vou am-la muito, Brbara.
     Ela o fitava, as duas mos no queixo, olhos muito abertos. Assentia, silenciosamente. Desejando que ele se fosse, para poder pensar. Porque agora, sim, necessitava 
pensar.
     Law retirou-se, afinal, e ela foi para o banheiro. Tomou um banho demorado, enxugou-se, sempre vagarosamente, escolheu roupas para vestir...
     Pensava. Sentia-se como uma menina ignorante...
     E o que era, na realidade, seno isso mesmo? Nos seus vinte e dois anos, o que sabia da vida? Seu... "caso" com Burl no passara de uma brincadeira tola. Uma 
loucura estpida. Culpa da sua ingenuidade.
     Aquilo era diferente. Algo... pleno. Acabou de escovar os cabelos e saiu do quarto.
     
     
Captulo 10
     Havia a cozinheira, duas copeiras, alguns criados para os inmeros afazeres da casa...
     Todos pareceram simpatizar com ela. E Brbara tirou proveito daquilo, para aturdir-se, encher suas horas e sua mente, tomando conhecimento de tudo quanto se 
passava na casa.
     Teve ocupao para a manh inteira, conversando com a criadagem. Justamente o que queria: manter-se ocupada.
     Quando saiu para o parque, conheceu outros empregados. Cavalarios - Law adorava equitao - jardineiros... Todos a cumprimentavam. Os mais velhos tomavam a 
iniciativa de lhe dirigir a palavra.
     Mas havia algo... horrvel. Brbara pensava, e no sem razo de todo, que eles a olhavam de um modo especial, como se a vissem, em imaginao, a ss com o seu 
marido, na noite anterior.
     Aquilo era como um pesadelo. Um pesadelo que a fazia corar de quando em  quando. Que a enchia de vergonha, dada a sua fina sensibilidade de mulher.
     
     Law chegou ao meio-dia, com aquela sua naturalidade, como se fosse um veterano do casamento, como se estivessem casados j anos...
     Brbara supunha, e com acerto, que, dado o seu equilbrio, sua vivncia, o que ele tentava era dar aparncia de naturalidade ao seu novo estado. E o conseguia.
     Tanto que ela mesma comeou a tranqilizar-se.
     Law entrou na sala de jantar, batendo com o chicotinho nas botas, alegremente, aproximando-se dela, beijando-a de leve na boca, perguntando-lhe como passara 
a manha...
     Sentou-se na mesa defronte a ela, comeando a conversar.
     - Agora tudo ir muito melhor... - dizia, satisfeito. - Tenho bons capatazes, mas... sou mais por aquele velho provrbio que diz "Fazenda, teu amo te atenda...!"
     Brbara se esforava para sorrir, para prestar ateno. Ele tambm sorria, meneando a cabea.
     - No posso abandonar isto, pelo menos em certas pocas do ano... Nem devo, na verdade, porque tudo consegui com o meu esforo, tudo representa a minha vida. 
Uma grande parte da minha vida, pelo menos.
     Tornou a menear a cabea, olhando-a com interesse.
     - E voc? O que fez? - quis saber. 
     Brbara sentiu-se melhor, mais segura de si mesma.
     - Conheci os criados - respondeu, com toda a naturalidade que pde arranjar, como se pretendesse imit-lo. - So todos muito simpticos. Parecem boas pessoas.
     - timas - confirmou Law, satisfeito. - Vejo que ser uma grande dona de casa. Como uma castel, quase.
     Puseram-se a comer, ele muito animado, ela sentindo que, tambm, se animava um pouco. Law lhe contava acontecimentos do vale. Falava da sua gente. Todos se 
alegravam muito ao v-lo de volta, e casado.
     Sentia-se como que rodeado por uma enorme famlia - assegurava. Todos os seus colonos e criados o apreciavam. No que o dissessem... Era que se podia ver nos 
olhos deles.
     Falava, tambm, da colheita, que, naquele ano, seria enorme. E tornou a prometer que, terminada a colheita, fariam uma longa viagem. Mencionou vrios lugares 
aonde a levaria... Ria, tratando de distra-la.
     Brbara sentia que o admirava cada vez mais, por diversos motivos. Pela sua delicadeza, pela sua firmeza... Por tentar poup-la da natural inibio do seu novo 
estado.
     - Voc est muito calada - observou ele, afinal.
     - Estou escutando-o. No?
     - Tem razo. Eu falo e falo... O que vai fazer  tarde?
     Brbara deu de ombros. O que poderia fazer naquela casa estranha...? Estava habituada aos seus afazeres no hospital. Nunca fora uma dona de casa...
     - No sei - confessou.
     - Eu no tenho que ir aos campos. 
     Era o pior. Se no tinha que ir... certamente ficaria com ela.
     - Ficarei com voc - declarou Law, confirmando os seus receios. 
     Mas risonho, como se aquilo no tivesse nada de mais.
     Ficou e encheu todos os vazios da sua vida, do seu corpo, da sua alma. Brbara comeava a sentir que, tambm, tinha necessidade dele.
     Gostava das suas carcias e daquela sua maneira de sussurrar sobre a sua boca:
     - Eu a amo... acho que j a amo. Sabe?
     Ela estremecia, como que traumatizada. Talvez o amasse tambm, mas no sabia expressar-se. E ele a censurava por isso, brandamente:
     - Voc no  expressiva...
     No sabia o que dizer-lhe, o que responder. Gostaria de gritar, de confessar que quisera ser diferente, mas no podia...
     - Aprenda comigo. Melhor mesmo que no seja. Aprender comigo.
     Desejara poder aprender! Porque realmente queria aprender. Mas sentia-se inibida, diminuda... fechada em si mesma.
     Assim, uma semana, duas...
     Um dia, Law murmurou:
     - Eu aprendi a am-la. Mas voc... 
     Parecia queixoso. E aquilo lhe doeu. O culpado era ele mesmo, que a inibia com sua paixo, seu ardor. Gostava daquilo, mas, ao mesmo tempo, se sentia inibida.
     E fechada a boca, porque lhe dava vergonha confessar que ele enchia toda a sua vida.
     - Gastaria que voc fosse diferente - dizia ele.
     Mas no o era, no sabia ser.
     - Continuo sem conhec-la - queixava-se Law, muitas vezes.
     Porque se calava, sem coragem para confessar o que sentia. Porque aceitava aquela sua paixo, mas no sabia retribuir...
     Pensava em tudo isso, naquela tarde.
     Law sara. E ela estava sozinha, na casa enorme, silenciosa. Com tempo e sossego para pensar. Mas sua mente era um caos...
     - Sra. Smith... telefone.
     A voz da criada sobressaltou-a. "Sra. Smith"! Soava bem... Gostava de ser a Sra. Smith... mas, saberia ser? No. No sabia. Tinha certeza...
     Desejava ter coragem suficiente para gritar-lhe o seu amor, a sua necessidade dele! Para dizer-lhe que gostava de estar com ele, que, se ele lhe faltasse, algum 
dia...
     - Sra. Smith...
     - Oh! Sim, Mary... j vou! Estava distrada...!
     Correu para a saleta onde estava o telefone. Quem poderia ser...? Ann lhe telefonava, freqentemente. E a Ann, sua amiga do peito, ela confessava: "Eu o amo, 
Ann, amo-o... eu lhe disse que viria a am-lo..."
     Mas, ao prprio Law, que era a quem deveria confessar... no confessava, por mais que se esforasse.
     Levou o fone ao ouvido, curiosa. 
     - Al...
     - Ento, na minha ausncia, casou-se...
     Brbara estremeceu, crispou-se toda.
     De sbito, perguntou a si mesma se amara aquele homem, algum dia. Se, durante tantos dias aps o seu casamento, nem se lembrava dele...
     Fora a sua juventude, a sua solido... Claro. Era apenas uma mocinha assustada, sozinha no mundo, e ele a deslumbrara. Agora no havia mais lugar para ele, 
nem na sua vida, nem na sua memria.
     - Brbara...
     - Fale.
     Sua voz soou dura, num desafio. Burl pde sentir a diferena que havia nela. E gritou:
     - Voc no contou a ele. Garanto!
     - V perguntar-lhe.
     Ela mesma estranhou a sua voz, que ganhara um acento cansado. Como se tudo aquilo realmente carecesse de importncia. Como se toda a importncia se houvesse 
transferido para outra coisa: a sua vida ao lado de Law.
     - Escute, Brbara, se no vier encontrar-se comigo...
     Surpreendeu-se novamente, ao ter vontade de rir. Ou de chorar? Sobretudo de dizer-lhe que era um... um infeliz. Um zero. Que, para ela, no contava mais.
     Que no estava mais sozinha. Que nunca mais tomaria a estar sozinha.
     Mas mordeu os lbios.
     - Voc sabe que no irei. Que no quero mais saber de voc. Que o desprezo.
     - Procurarei o seu marido e lhe direi...
     - Pois diga o que quiser!
     - O que eu quero  mat-lo! 
     Outra vez a vontade de rir.
     Burl era um covarde. Um pobre coitado. Matar Law, ele...? De maneira nenhuma! Jamais teria coragem. Quando se visse cara a cara com Law, com a tremenda personalidade 
de Law... daria o fora, rabo entre as pernas.
     Agora outra idia brotava na sua mente. H muito andava suspeitando de algo. Da procedncia daquele dinheiro com que Burl pudera montar a sua clnica...
     Aproveitaria para tirar a coisa a limpo, naquele mesmo instante! E exclamou:
     - Ele vai querer o dinheiro de volta!
     Percebeu o desconcerto de Burl. Pde imaginar a crispao do seu semblante.
     - Ento... ele lhe contou...?
     - Tudo - mentiu, quase rindo. - contou tudo.
     - Aquele...! - Burl apenas grunhiu o palavro. - Ele me tirou do caminho, com um cheque! ... deprimente!
     - Para voc, que o aceitou, sim. Vamos, Burl, desista. Esquea que eu existo. Voc me d muita pena. Sabe? E tenho pena de mim mesma tambm, quando penso que 
um dia o amei e at o admirei.
     - Escute...
     - No quero ouvir mais nada. 
     - Brbara, eu vim busc-la! 
     - Que iluso boba!
     - Brbara, escute...
     - No seja tolo!
     Brbara desligou, rindo baixinho. E se surpreendeu por estar rindo.
     Enfim, aquele era um assunto encerrado. Morto. Dentro dela j morrera h muito, muito tempo, sem que se desse conta... porque sobrevivia a recordao.
     A partir daquele momento, entretanto, a recordao morria tambm. Apagava-se, purificando a sua mente.
     Burl no tornou a telefonar. Foi Ann quem ligou mais tarde, para informar: no
     - Burl esteve aqui... mas foi embora logo. Parece que est se dando bem em Charleston.
     Melhor. Assim a esqueceria, tendo novos interesses.
     
     Law voltou ao anoitecer, no seu carro. Brbara teve mpetos de correr ao seu encontro, pendurar-se ao seu pescoo, beij-lo... Beij-lo, sim, ela mesma, por 
prpria iniciativa, sem esperar que ele o fizesse...
     Porque ela nunca o fazia, por si mesma. Nunca conseguia ser espontnea e at lhe era difcil corresponder s suas carcias.
     Law enchia toda a sua vida. Mas ela no era capaz de demonstrar a sua plenitude.
     Quanto a Law, ao descer do carro, olhava-a, de longe, E pensava muitas coisas.
     No em Burl. Que tolice! Ele jamais ocupava a sua mente com tais mesquinharias! De modo que nem se lembrava mais da existncia de Burl.
     Pensava era nela, na sua mulher, Brbara. E pensava, agora, com desnimo, at mesmo com amargura.
     Porque ela no o amava. No conseguira aprender a am-lo. E ele a amava.
     Tinha necessidade dela, no poderia mais viver sem ela...
     No entanto, se Brbara no o amava... ele teria que aprendera viver sem ela, agora. E tal idia o deixava amargurado, desanimado de tudo.
     - Brbara, cheguei - anunciou, desnecessariamente.
     Ela continuava parada no ltimo degrau do alpendre. Como uma esttua. Desejando ir ao seu encontro, mas sem se animar a fazer um s movimento, um gesto.
     Law avanava, olhando-a. Parou diante dela. Levantou uma mo, mas apenas pousou-a no seu ombro.
     - Voc no saiu - observou. E, logo, sem transio, sem beij-la: - Eu venho cansado.
     
     
Captulo 11
     Enlaou-a pela cintura, porque no poderia solt-la mesmo, e assim entraram no vestbulo.
     - Estive em Macon.
     Teria visto Burl?
     Law, alheio aos seus pensamentos, porque nunca pensava em Burl e pouco lhe interessava o seu paradeiro, acrescentou:
     - Fui consultar o Dr. Morton. 
     Brbara sobressaltou-se.
     - Voc... est doente?
     Law lanou-lhe um olhar. Ento, se preocupava com ele? Era a impresso que dava, naquele momento. Parecia haver ansiedade, angstia, na sua pergunta.
     Mas no queria mais alimentar iluses, com respeito aos sentimentos de Brbara.
     - No, no... Precauo apenas.
     - Ah.
     - Morton mandou-lhe um abrao. E outros mandaram lembranas. No me lembro dos nomes de todos.
     - Ah. S isso.
     Law suspirou.
     - Esta noite vou deix-la sozinha - disse, em seguida, com a naturalidade que o caracterizava.
     Brbara ficou parada, junto da mesa, espantada, diminuda.
     - Tem que... sair? - arriscou.
     - No.
     - No...?
     - No. - Ele a olhou, mas desviou a vista. -  que no quero... impor-lhe a minha presena, a minha... companhia. No quero que tenha de estar sempre se esforando 
para ser... amvel comigo.
     Brbara pestanejava, desconcertada. Mas o que estava dizendo?
     - Acho que voc  muito fria.
     No o era, de maneira nenhuma! Era o seu problema, a sua tragdia... Aquela vergonha sua, vergonha de ser, de revelar-se como era na realidade.
     - Por isso... pensou que sou um fardo para voc.
     Um fardo, sim. Mas... to necessrio! Muito necessrio!
     Pensou que estivesse dizendo aquilo, mas a verdade era que reinava silncio entre ambos.
     Law rompeu-o, para dizer, com certa amargura:
     - Quando ainda no a amava, sabe... ainda podia tolerar esta sua maneira de ser, assim, fria. Mas, agora... no posso mais.
     Brbara continuava silenciosa, tensa. Desejando dizer uma poro de coisas. Tudo o que sentia por ele. Mas com a lngua travada.
     Seus lbios at doam, de tanto que os apertava.
     - Porque agora eu a amo - acrescentou Law, brevemente.
     E olhou o relgio, suspirando.
     - Por isso prefiro deix-la s, esta noite, Brbara.
     Queria gritar que no o fizesse. Mas, quando teve voz, perguntou, apenas:
     - Mas... aonde ir? 
     Law deu de ombros.
     - Tenho o meu velho quarto de solteiro. Era muito cmodo. Suponho que continuar sendo.
     - No... no o faa! 
     Law virou-se, encarando-a. 
     - O que diz?
     Nada. Assim, sob o seu olhar, j no podia dizer nada.
     Desviou a vista, pressurosa.
     - Se  o que voc quer... - murmurou, contra a sua vontade.
     E desejou esbofetear a si mesma, pela sua estupidez.
     Law alisava os cabelos, uma e outra vez.
     - Eu gostaria de ter filhos... filhos seus e meus... - dizia. - Mas, assim... no.
     Brbara sentia a agitao do seu peito. Havia como que uma contrao no seu corao.
     - Sou... uma boa esposa - sussurrou, engasgada. - Procuro ser...
     Interrompeu-se, ao v-lo sacudir a cabea.
     - No. No  isso... - disse ele. - Nada disso. Acontece que... bem, eu sou como sou, e... desejaria que a minha mulher correspondesse aos meus sentimentos.
     Novamente abriu-se a boca de Brbara, para dizer o muito que o amava. Para pedir que no se fosse, no a deixasse, porque seria pior...
     Para garantir que, tendo-o ao seu lado, a confiana surgiria, de um momento para outro. Que, separados, certamente se distanciariam mais anda...
     Mas sua voz estava presa na garganta. No teve coragem nem foras para dizer tudo aquilo, tudo quanto sentia e pensava.
     Law parecia cansado, como que esgotado.
     - Vou dar uma volta antes do jantar - disse.
     - J so nove horas...
     - Eu sei. - Ele olhou pela janela. - Dentro de uns dois meses, a esta hora, j ser noite fechada.. Mas, por enquanto, ainda h claridade.
     Ia saindo.
     Brbara quis mover-se, para ir atrs dele. Para tentar novamente dizer-lhe... coisas, todas as coisas que sentia.
     Mas continuou parada, enquanto ele desaparecia pela porta. Paralisada, incapaz de fazer um s gesto.
     
     Aproximava-se a hora do jantar. A copeira andava de um lado para outro, arrumando a mesa.
     Brbara,  janela, esperava, aparentemente calma, mas, por dentro... havia uma agitao tremenda no seu peito.
     No poderia suportar aquela separao. Pensar que ficaria sem ele, sem a sua companhia... era uma agonia.
     - J so dez horas - comentou, olhando a copeira.
     - Sim, dez - confirmou a jovem. - E o patro... ainda no veio.
     Mary olhou-a, de um modo meio estranho.
     - O patro est no seu pavilho. 
     Brbara pestanejou.
     - Pavilho...?
     - Sim, senhora... um pavilho de caa, l do outro lado do parque. A senhora ainda no conhece tudo aqui... Antes, ele passava dias e noites l. Eu o vi, h 
pouco, preparando a escopeta. Sabe? Acho que vai caar.
     - Ah.
     - Antes ia caar freqentemente. 
     Brbara refletiu brevemente.
     - Vou busc-lo - disse. - Eu a chamarei na volta, Mary.
     E saiu. Tinha que v-lo, falar com ele... No sabia o que lhe diria. Mas tinha que ir atrs dele.
     Foi andando, at dar com o pavilho. J o vira, mas pensara que fosse do administrador. No imaginara que fosse de Law. E agora, l estava ele...
     Deteve-se  porta, olhando-o.
     - Law - chamou. 
     Ele levantou a cabea.
     - Entre. Estou limpando a escopeta.
     O interior era confortvel, bem arrumado, com simplicidade. Um ambiente bem adequado para Law.
     - Law...  hora de jantar.
     - Hem? Ah! Sim...  que esqueo as horas, quando entro aqui. E quando estou limpando as minhas armas de caa.
     Parecia cansado, ausente. Brbara o observava. E tomou coragem para dizer:
     - No sou a mulher que voc desejava ter como esposa.
     - Bom... J sabe que no sou homem de mentiras, de rodeios. E j lhe disse o que pensava a respeito.
     -  que eu...
     - Calma. No se esforce para ser amvel.
     Desejava gritar que s se esforava para falar, no para ser amvel. Que o amava e o queria, que s conhecera o amor depois de casada com ele... mas sua voz 
no saa. Era uma tortura!
     - Eu gostava disto aqui antigamente - dizia ele, mostrando o interior do pavilho. - Depois, gostei mais daquele quarto, com voc... Agora... acho que voltarei 
para c com mais freqncia.
     Largou a arma em cima da mesa e acrescentou:
     - Bom. Se veio me buscar para jantar... vamos indo.
     Brbara saiu primeiro, sentindo-se muito pesada. E o ouvia caminhar, atrs dela, com o seu ar distrado.
     
     
Captulo 12
     Law falava, enquanto comiam. Falava de tudo e de nada. No se referia  situao do seu relacionamento. Para qu? Sobre aquilo, j estava tudo dito.
     Amava-a, sim. Mas, se ela no correspondia...
     Para ele, sexo e amor eram a mesma coisa. E no podia suportar a passividade da sua mulher. Por isto a deixava sozinha, livre. Livre dentro daquela gaiola de 
ouro.
     Livre para sair e entrar, at para pedir a separao, se lhe parecesse conveniente. Queria-a, mas no daquela maneira, como se tivesse comprado uma escrava.
     Terminada a refeio, levantou-se, olhando o relgio.
     - Vou voltar ao pavilho - disse, sorrindo. - Quero sair bem cedo, de madrugada, para caar um pouco, provvel que no venha almoar.
     - Lawrence...
     Olhou-a, achando estranha a sua voz. Iria ela agradecer porque a deixava s? Preferiria que no o fizesse... 
     - Espero ter sorte e caar uns patos... - riu.
     - Lawrence, eu...
     Olhou-a de novo, perscrutador.
     - Diga, querida.
     Mas no saa nada. Simplesmente no podia falar.
     Tinha a impresso de que as palavras lhe queimavam a boca. E o amor lhe ardia no peito.
     Nunca lhe acontecera nada de semelhante, Mas estava acontecendo agora. No queria perder Law. Precisava dele loucamente. Fsica e moralmente.
     - Bom, se no tem nada a dizer... j vou...
     - Tenho!
     Law deteve-se, tornando a olh-la. Mas Brbara acabou por baixar a vista, juntando as mos  altura do estmago, apertando-as com muita fora.
     - Est muito esquisita, Brbara.
     -  que eu... eu...
     Silenciou de novo. E Law esperou mais dois segundos, trs, quatro... Finalmente desistiu. Deu de ombros e foi saindo.
     Brbara levantou-se.
     Ficou muito ereta, vibrante, trmula.
     Tornou a abrir a boca, quando ele chegou  porta. Mas tomou a fech-la, quando ele se voltou para dizer:
     - Boa noite, Brbara.
     Nem ao menos pde responder. Ademais, no era o que queria - corresponder  despedida. Queria era outra coisa: pedir que ficasse... E isto no conseguia.
     Mas no iria ceder, pensou, com deciso. Se no podia falar... demonstraria, com atos, o que sentia.
     E foi andando atrs dele, silenciosa. Law nem percebeu. Ia tambm devagar, como que abatido, decepcionado...
     Ela o seguia, como um autmato.
     Foi quando chegava ao pavilho que Law, finalmente, ouviu as suas pisadas. E se voltou, como se tivesse molas.
     - Brbara...! O que faz aqui?
     Ela torcia as mos, estalava os dedos, nervosa.
     No sabia. Ou sabia, sim. Fora com ele, ia com ele. No?
     Porque no podia passar sem ele.
     Encostou-se ao marco da porta, temendo desfalecer, sentindo-se diminuda sob aquele olhar perscrutador do marido.
     - Brbara... o que veio fazer aqui? Por que veio? Para qu? Talvez para me agradecer por ter... t-la deixado sozinha no seu quarto? 
     - Oh! No! No...  que.. no posso!
      Era o seu marido. Sabia mais a respeito dela do que ela mesma poderia saber. Sua intimidade com ele chegara ao mximo. E, no entanto...
     Aquele homem, que tanto sabia a seu respeito, continuava a intimid-la.
     - Brbara!
     Ela fugia, ia sair correndo... Mas Law, num salto, agarrou-a pelo brao.
     - Brbara! Voc est chorando...!
     -  que...
     - Brbara, querida... diga por que, por que chora! Fale!
     No podia. Algo doa no seu peito, seus dentes se cerravam. E ento...
     De repente, ocorreu algo, assustador.
     Law atraiu-a para si. Tal como j fizera tantas vezes. Mas percebendo algo de diferente.
     Nunca ela se apertara contra ele, nunca tanto como agora. Com aquela intensidade.
     Estava colada ao seu peito, entregue, voluptuosa, desejvel... e desejando-o tambm.
     - Brbara...! 
     Era outra.
     - Brbara!
     -  que...
     - Brbara... voc me ama!
     - Sim. - Sua resposta era um gemido. - Sim, sim!
     Law levava-a para dentro do pavilho. Fechou a porta com o p. Levantou a sua mulher nos braos, sentindo que ela levantava as mos para cruz-las atrs da 
sua nuca.
     E, de repente, num mpeto, Brbara comeava a beij-lo.
     - Law... Law!
     - Diga outra vez, Brbara! - pediu Law, exigente, rouco.
     - Eu o... Eu o amo! Preciso de voc! Nunca... nunca tinha me acontecido... nada igual!
     Abafou-lhe a voz com um beijo. Brbara tinha a impresso de que seus lbios se partiam, se desfaziam sob os dele.
     
     - No disse que ia caar? 
     Law ria.
     - Disse.
     - Pois est amanhecendo... 
     Sua voz se perdia, naquela boca que cobria a sua. 
     - Deixe que amanhea! - Law tornava a beij-la. E gracejava - Acontece todos os dias, sabe...? Amanh... amanhecer de novo!
     - Bobo! V buscar uns patos!
     - Deixe os patos em paz agora. Outro dia... Voc ir comigo. Aprender a caar.
     Brbara ria tambm, feliz. Algo se libertara no seu ntimo, e ela se sentia leve.
     - No dormiu nada a noite toda! - exclamou Law.
     Brbara ajeitou-se melhor nos seus braos, aconchegando-se ao seu peito. Fechou os olhos, suspirando.
     - Agora... posso dormir. 
     Sua voz era como uma carcia. Aquela, sim, aquela era Brbara, a sua Brbara, pensava ele, estreitando-a amorosamente. A sua Brbara, tal como pensara que seria.
     
